Educação

TEMÁTICA EDUCAÇÃO

 ESCOLA: MEMÓRIAS DO FUTURO

 A proposta da Temática Educação da 13a CineOP é um gesto de história e preservação que tem por foco a escola pública. O Encontro da Educação que sedia anualmente o Fórum da Rede Kino: Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual celebra, nesta edição, 10 anos da Rede Kino e se propõe a fazer uma homenagem às escolas, fundamentalmente às escolas públicas. Queremos fazer um verdadeiro elogio à escola pública. Algo assim como um ato de resistência e uma afirmação da sua existência diante de tanta crítica acumulada sob as mais diversas questões.

 Tomamos a etimologia da escola, do grego skholé, que signfica "tempo livre" (das obrigações impostas pelo mercado e pelo consumo) e da palavra latina sachola que designa o lugar ou estabelecimento público destinado ao ensino. Reunindo ambos significados podemos dizer que a palavra escola remete fundamentalmente ao tempo (livre) e ao espaço (público) dedicado ao estudo, segundo Jorge Larrosa, convidado internacional desta edição, que aprofundou os conceitos propostos pelos professores belgas Jan Masschelein e Marteen Simons na sua veemente Defesa da Escola publicada em 2014 no Brasil. Acreditamos que a escola, como nenhum outro espaço/tempo, têm uma poderosa capacidade de produzir e guardar a história no ato de atualizar passado e futuro em um presente comprometido com a atenção, o amor e cuidado ao mundo.

 Consideramos que a escola pública, como toda forma de educação pública, está ameaçada de extinção. O sucateamento com o público acentuado nesses últimos anos, não tem poupado a escola, que alvo de críticas,  vive em crescente processo de desqualificação e acusação de obsolescência, enquanto se enaltecem outros espaços e modelos de aprendizagens.

 Na 13ª CineOP vamos dedicar um espaço e um tempo para pensarmos juntos, a partir de imagens, textos e filmes sobre o que é exatamente escolar. O que faz de uma escola pequena de montanha, de uma outra escola no meio de um bairro de qualquer cidade, de uma escola de uma aldeia Guarani ou de uma escola ultramoderna, uma escola? Por que motivos ainda hoje qualquer pessoa, de longe, pode reconhecer uma a partir da sua forma? As paredes de uma escola dificilmente são confundidas com outras paredes. Sua entrada, as janelas, o pátio. É preciso refletir sobre essa materialidade da própria arquitetura; como ela espacializa o tempo livre em um lugar público, como nos dá tempo livre, isto é, separando o tempo escolar do tempo do trabalho; e também suas matérias, no sentido da escola ser o  tempo (livre) e espaço (público) em que as coisas do mundo se transformam em matéria de estudo; e suas atividades que, ao estarem separadas do mundo da produção, permitem atenção ao exercício e ao estudo; para finalmente, também refletir sobre seus sujeitos, nós todos, que dentro dela abandonamos o mundo do consumo e da produção, para nos transformarmos em professores e estudantes.

 Olhar dessa maneira para a escola não significa produzir uma mirada nostálgica para ela. A intenção é valorizá-la, identificando exatamente o que ela tem de específico, o que ainda podemos reconhecer que é valioso em qualquer escola do mundo, por ser "escolar". Convidamos a todos para criar um contexto de reflexão sensível direcionado a olhar com atenção para as escolas. A proposta é fazer desse encontro uma chamada aos próprios professores e estudantes para enxergar a escola como aquele lugar privilegiado para apresentar o mundo às novas gerações, orientar e exercitar a atenção nele e desenvolver formas de cuidado e amor por ele. Reconhecer sua potência e revisar nossa crítica inercial, que às vezes, ingenuamente a aponta como problema e fazem dela uma vítima; libertá-la de certas políticas públicas que, regidas pelo mercado, pelas avaliações nacionais e internacionais, pelo ingresso à universidade e pelos rankings de todo tipo, acabam condicionando o dia-a-dia da escola a uma camisa de força.

 A escola é tempo livre de tudo isso. Essa é sua potência e a nossa, porque é um espaço público, ou seja, um espaço de todos nós. Precisamos ocupar este espaço,  proteger e defendê-lo  das obrigações excessivas que a ele se impõem sob os mais absurdos e arbitrários critérios. Cada nova lei, cada nova política pública implica em inúmeras obrigações para os que habitam as escolas e, por isto, devem  ser refletidas para que estas novas exigências não sejam naturalizadas e aleatórias e nem desprovida de recursos e conhecimentos especifícos para atender a tais demandas. É importante ir além e nos perguntar, o que é realmente necessário aprender na escola? Será que isso se aprende? E, em consequência, o que não precisaríamos aprender na escola? Como e onde aprender? Como desresponsabilizar a escola e seus sujeitos de tanto trabalho extra?

 Sentimos a urgência de reconhecer na escola seus atores, sua forma, suas operações e linguagem de um modo afirmativo. Se ainda hoje encontramos nela elementos que permanecem desde sua invenção, talvez seja porque efetivamente ela tem uma especificidade própria que, como o belo, guarda algo de eterno e de efêmero.

 Queremos olhar para a escola como esse lugar generoso sobre todas as coisas. Larrosa, no seu abecedário sobre educação (2016) afirma que ela é generosa porque nos oferece um espaço, todo mundo tem um lugar na escola, porque nos oferece tempo, muito tempo para aprender, exercitar, errar, ensaiar, fazer de novo, fazer de conta, repetir e fazer diferente. E oferece materialidades, textos, imagens, sons, filmes, enfim, uma infinidade de coisas dotadas de potências pedagógicas, como nos lembrara Pasolini. Nesse sentido, o cinema se torna um gesto especial de atenção ao mundo: fazer um filme nos obriga a olhar as coisas. Como afirma o diretor italiano, o olhar de um cineasta não pode deixar de tomar consciência de todas as coisas que ali se encontram, quase enumerando-as.

 Enquanto para o literato as coisas estão destinadas a se converter em palavras, para o cineasta as coisas continuam sendo coisas.  Os signos do sistema cinematográfico são as próprias coisas, na sua materialidade e na sua realidade. Para o mestre nascido em Bologna, existe uma linguagem pedagógica das coisas. E nas coisas da escola encontramos também o cinema. Mas é preciso pensar também que o cinema, que os filmes e que as experiências podem se realizar com eles.

Cada vez mais a educação se confunde com a vida e ao parecer fica cada vez mais difícil resistir a pedagogização da existência. Qual seria, então, a missão particular da escola? Sua forma? Seus objetivos e especificidades?

Os muros da escola, criticados inclusive por nós mesmos, podem ser compreendidos hoje também como uma verdadeira proteção, uma espécie de barricada contra tudo o que se quer impor à escola: shopping, provas, competições. Segundo Larrosa, a palavra aula tem uma etimologia interessante que significa um círculo cerimonial, mas por extensão, também um curral no qual se encerram as crianças e, ao mesmo tempo,  as protegem. Também nas cortes dos palácios, aula era um pátio vazio onde habitavam os funcionários que não tinham uma função específica. A aula é o lugar da voz, lugar onde aprendemos de ouvido, como dizia Maria Zambrano, a experimentar nossas incompletudes e a descobrir o quanto precisamos da biblioteca;lugar onde professores e alunos podem ir e vir levando e trazendo leituras ora em voz alta, compartilhando, ora em silencio, em ritmo pessoal de estudo.

Uma das críticas mais frequentes à escola é sua falta de atualização com as tecnologias da época que vivemos. Curiosa e contraditoriamente, pensamos que a escola pode ser um espaço/tempo para a identificação dos processos. Uma especie de contraponto aos modos acelerados de comunicação que vivemos hoje. Uma possibilidade para nos determos e para olharmos, para pensarmos, para definirmos pontos de vista e escuta. Em um certo sentido, um gesto de cinema e de educação. Queremos colocar em diálogo o público com nossos convidados sobre estas questões.

Queremos também colocar em pauta novamente um momento de reflexão sobre a lei 13006/14 e seus avanços, uma vez encaminhada a proposta de regulamentação ao Conselho Nacional de Educação. Compartilhar experiências com a presença e colaboração de profissionais do Brasil, Uruguai e Espanha de projetos que utilizam o cinema nas escolas, e, ainda, estreitar o nosso diálogo entre cinema e educação, com a realização de um debate para pensar um PLANO de cinema, um PLANO de aula, o que tem em comum, suas relações e potências e comemorar os 10 anos da Rede Kino e projetos realizados no Brasil que unem as linguagens cinema e educação.

Realizaremos, mais uma vez, a Mostra Educação. Nesta edição serão exibidas as produções audiovisuais de estudantes, professores e cineastas organizadas em formato de abecedário a partir das relações entre as imagens de hoje e do passado das escolas, de arquivos existentes com o propósito de refletir sobre a escola a partir das categorias que Jorge Larrosa propõe no livro Elogio da Escola. Isto é, de seus tempos: a escola dá tempo livre, separando o tempo escolar do tempo do trabalho; de seus espaços: a escola como a espacialização do tempo livre em um lugar público; das suas matérias: a escola como tempo (livre) e espaço (público) em que as coisas do mundo se transformam em matéria de estudo; das atividades: a escola como o tempo e o espaço que por estar separado da produção, permite o exercício e o estudo; e dos seus sujeitos: a escola como o tempo e o espaço em que alguns adultos se e crianças, abandonando o mundo do consumo e da produção, se transformam em professores e estudantes.

Os Projetos Audiovisuais serão apresentados em três sessões, totalizando 15 propostas norteadas por  duas imagens e duas perguntas. As imagens trazem algo do presente e do passado e as questões propostas pelos participantes girarão em torno de três eixos: (1) O que é uma escola?; (2) Escola, memória e ficção e (3) Potencia pedagógica das coisas (da escola), integrando trabalhos de diferentes estados e espaços de ação educativa.

Por fim, 2018 é um ano de celebração - 50 anos dos gritos de liberdade nas manifestações iniciadas pelos estudantes que queriam reformas educacionais. Estudantes contagiaram trabalhadores e operários e atingiram milhões de pessoas. Um ato político que surgiu da educação, cujos gritos ainda ecoam nas escolas. Hoje a greve, como instrumento político, já apresenta fragilidades e limites. E, novamente foram os estudantes que, inconformados, ocuparam as escolas, chamando nossa atenção para defendê-la, protegê-la e cuida-la. Não existe um lugar mais político que a escola, não como cenário, mas como gesto de vida.