Histórica

TEMÁTICA HISTÓRICA

VANGUARDA TROPICAL: CINEMA E OUTRAS ARTES

Em 1968, ano marcante para a história brasileira, foi lançado o disco Tropicália, panis et circenses.  Um trabalho coletivo que agregou músicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto, Nara Leão e a banda Os mutantes, o disco foi o ponto culminante de uma série de experimentações artísticas que tomavam forma nos 1960 e que davam continuidade ao legado da antropofagia inaugurada no modernismo dos anos 1920 que teve no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, seu programa mais exemplar. Também o teatro se reconectava ao ideário antropófago renovado, pois o Teatro Oficina de Zé Celso encenava o Rei da Vela, de Oswald de Andrade, assim como parte do cinema brasileiro mais radical teve na antropofagia e no diálogo com o tropicalismo um novo horizonte de experiências formais e confronto com a realidade do país e com os paradoxos da “consciência nacional”.

Por isso, é possível notar que se o disco Tropicália foi fruto de um processo que se deu no campo da música, o tropicalismo foi um movimento que permeou, nos anos 1960,  o teatro, o cinema, as artes plásticas e a literatura, invertendo os sinais de uma cultura brasileira que se lançava às inovações mais radicais de linguagem.  A vanguarda entre nós apostou em rupturas com a ideia de "autêntico nacional" e apostou na digestão e inclusão de vertentes culturais diversas, mescla do samba com o rock, e quebradas hierarquias entre alta e baixa cultura, tornando tudo matéria de criação.

Esse vanguardismo levava em consideração a condição subdesenvolvida do país, seu lugar de periferia do mundo, sua herança colonial (tanto na realidade social, quanto no “inconsciente colonizado”) e seu hibridismo contraditório entre o arcaico e o moderno, apostando na radicalidade formal como modo de transgressão política e intervenção cultural e política. Diferente de uma arte engajada que via na arte um instrumento de luta e no credo político um parâmetro de criação, essa “vanguarda tropical” apostava na forma que rompia padrões de comunicação mais tradicionais, desconstruía representações, desafiava a percepção e criava choque entre valores (culturais, morais, estéticos), produzindo assim uma arte nova e inquieta.

Neste período, e para além dele, personagens diversos atuaram em campos artísticos variados, rompendo também as barreiras entre as artes. O cinema também seria marcado por essa intensa troca e a formação de parcerias que marcariam toda uma produção do cinema brasileiro: em 1968, Raymundo Amado registrou as performances parangolés de Hélio Oiticica no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em Apocalipópotase; Julio Bressane filmou Maria Bethânia e JardsMacalé em Bethânia bem de perto, em 1969 e, já no exílio em Nova Iorque, realizou o experimento audiovisual, Lágrima Pantera, com Hélio Oiticica, em 1970; Hélio Oiticica, Lygia Pape, Iole de Freitas, Anna Maria Maiolino, diversos artistas visuais passaram a filmar em Super 8, bitola amadora que permitiu um forte movimento de cinema experimental; Jorge Mautner filmou no exílio, com diversos tropicalistas, o longa O demiurgo; o mundo de artistas como Gal Costa, os Mutantes, os artistas plásticos Wanda Pimentel, Roberto Magalhães, Antonio Dias e Rubens Gerchman foram magistralmente capturados e construídos cinematograficamente pelas mãos de Antônio Carlos Fontoura; em 1984, Caetano Veloso, grande representante da tropicália, dirigiriao longa metragem Cinema Falado.

 Partindo do conjunto de experimentações formais e estéticas que marcaram a produção dos anos 1960 e 1970, pretendemos criar um diálogo entre filmes e artistas que atuaram no campo cinematográfico e para além dele. Como o cinema registrou a efervescência cultural tropicalista? Como artistas visuais, músicos e poetas se apropriaram do cinema como prolongamento de seu trabalho artístico? Qual é a potência transgressora do poético? O que a radicalidade formal pode tensionar em termos de percepção do real? Esses questionamentos estavam no horizonte dessa “vanguarda tropical” que nos deu algumas das obras mais belas, intensas e originais da arte moderna no mundo.

A edição de 2018 da Mostra de Cinema de Ouro Preto, Vanguarda tropical:  cinema e outras artes, propõe uma investigação de um rico movimento da cultura cinematográfica brasileira, que se desenvolveu em um momento tão obscuro de nossa vida política e social,  que inclui filmes rodados sobre artistas, filmes dirigidos por artistas plásticos e músicos e toda uma produção experimental realizada nas trincheiras da contra-cultura, como os ciclos de Super 8 que tomaram conta de diversas regiões do país. Um cinema experimental e de vanguarda, feito de música, teatro, artes visuais, poesia e tudo o que cabe no grande caldeirão da cultura brasileira será o tema desta edição.

Francis Vogner dos Reis
Lila Foster
Curadores