Preservação

TEMÁTICA PRESERVAÇÃO

 Introdução

A 13ª edição da CineOP marca o início de uma nova fase do evento. Concluído o processo de construção do Plano Nacional de Preservação Audiovisual e de sua apresentação e discussão com diversos setores da cadeia do audiovisual e autoridades públicas, passamos para um novo momento na vida da mostra. A primeira década da CineOP caracterizou-se pela reunião dos diferentes atores e instituições do campo da preservação audiovisual do país e na formulação de um documento que pretende servir de base para uma política pública voltada para a preservação. Esta nova etapa, cuja transição teve início na edição de 2017, buscará estabelecer as bases de um debate mais articulado entre os diferentes atores da cadeia do audiovisual tendo o patrimônio audiovisual como preocupação central.

 TEMA

 FRONTEIRAS DO PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL

 Para a 13ª edição da CineOP propomos como tema uma reflexão sobre as “Fronteiras do patrimônio audiovisual”. 

Entendemos que fronteira é um tema central para as sociedades contemporâneas. Questões de migração, de asilo, de exílio – sejam eles causados por guerras, perseguição política, catástrofes naturais, condições econômicas – ocupam um espaço fundamental na agenda de todos os países. No contexto do Brasil, discutir fronteiras pode significar refletir sobre os conflitos pela demarcação de terras indígenas, a proteção de reservas biológicas, a expansão (desmedida) das terras para o agronegócio, o asilo de estrangeiros, ou mesmo a separação entre Estado e Religião e as discussões identitárias ou de gênero. Todos temas bastante importantes e sensíveis em nossa sociedade.

 As fronteiras, como diz Régis Debray, são o veneno e o antídoto ao mesmo tempo. Podem inibir ou gerar violência, podem segregar, mas podem também salvar. As fronteiras excluem, mas também protegem. Escondem, mas preservam. Um mundo sem fronteiras seria um mundo perigoso, bem como um mundo de fronteiras imutáveis.

 Porém, não há fronteiras fixas. Elas se mexem, se abrem, se fecham, se expandem ou retraem e estão em permanente disputa e tensão. São espaços dinâmicos, de negociação, de interação, por vezes violentos, sobretudo para quem as habita ou não pode cruzar-las. Mas sua sua existência, mesmo que provisória, é fundamental para a própria formação de um “eu” e de um “outro”, para a construção identitária, para separar cultura e barbárie. E, se entendemos o patrimônio cultural como um elemento formador de nossa identidade de grupo, de país, pensar como ele participa da construção de certas fronteiras, ainda que provisórias ou porosas, é tema de grande relevância.

 Nosso objeto, é claro, é o patrimônio audiovisual. Como podemos pensar as fronteiras desse patrimônio?

 A própria qualificação de “audiovisual” estabelece de antemão uma fronteira, um limite. Não se trata apenas do patrimônio cinematográfico, nem tão pouco diz respeito a outros patrimônios artísticos, arquitetônicos, históricos. Aqui são as imagens em movimento que estão em discussão. Mas todas elas? Quais imagens, sons, documentos e experiências compõem nosso patrimônio audiovisual? Quais estão de fora? Quais são os seus limites? O que torna uma obra ou um documento patrimônio? O que está à margem? Qual o papel dos arquivos audiovisuais nesse processo?

 Diversos caminhos são possíveis para refletirmos sobre essas (e outras) questões. Algumas abordagens consideradas importantes estarão no centro dos debates e discussões do 13º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros que integra a programação da 13ª CineOP, a saber: 

  • Fronteiras Políticas e Regionais: Arquivos Fora-do-Eixo
  • Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Preservação no âmbito Universitário
  • Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Malditos e Olvidados
  • Fronteiras entre a Indústria, Mercado e Arquivos: Tecnologias
  • Fronteiras entre a Indústria, Mercado e Arquivos: Conteúdo, Fomento e Regulação
  • Fronteiras internacionais: A Comissão Técnica da FIAF – 80 anos

 
PRESENÇA INTERNACIONAL

 A 13a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto vai levar à cidade histórica mineira importantes presenças internacionais para integrarem de uma série de encontros e discussões em torno do conceito central da temática Preservação “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual” aplicado ao universo das imagens em movimento e da restauração e preservação de acervos. Os convidados internacionais desta temática são o norte-americano Bill Morrison, a colombiana Juana Suárez e a francesa Céline Ruivo.

 BILL MORRISON (EUA) – diretor, produtor, escritor e editor

Artista híbrido, Morrison costuma trabalhar na fronteira entre as artes plásticas e cinema. Suas obras circulam tanto nos espaços de museus e galerias, como em salas de cinema, festivais e cinematecas. Uma reflexão sobre a história da preservação de filmes está no coração do trabalho desenvolvido por Morrison. Muitas de suas obras partem de fragmentos de filmes, de suportes em decomposição, de filmes encontrados para, a partir deles, criar algo novo. Podemos dizer que Morrison é uma espécie de arqueólogo-artista ou artista-arqueólogo cujas obras possuem diversas camadas de temporalidade e sentidos.

 Sua participação na 13ª CineOP acontece em dois momentos - na apresentação de seu último longa-metragem Dawson City: Tempo Congelado (Dawson City: Frozen Time, EUA, 2016, 120 min.) e vai ministrar uma master class com o tema  “Processo de Criação, Pesquisa e os Arquivos Audiovisuais. No encontro, o norte-americano vai conversar sobre seus trabalhos no uso de imagens de arquivo de diversas naturezas, tanto na conservação quanto na apropriação em trabalhos de montagem e reconfiguração de sentidos que marca a sua obra.

 JUANA SUÁREZ (Colômbia) – professora, pesquisadora, crítica, arquivista

Atua com pesquisas na área de arqueologia fílmica, memória audiovisual e estudos fílmicos latino-americanos. Organizadora e participante do APEX (Archival Exchange Program). Professora no departamento de Estudos de Cinema da New York University’s Tisch School of the Arts, Juana vai participar, durante a 13ª CineOP, da mesa de debate com o tema “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, produção e preservação no âmbito universitário”.

 Com a experiência de ter trabalhado também no Anthology Film Archives, de já ter ministrado diversos cursos sobre patrimônio audiovisual, de ter coordenado o processo de restauração dos filmes do cineasta colombiano Carlos Mayolo (1945-2007) e de ter atuado na FIAT (International Feferation of Television Archives) e no Ministério da Cultura da Colômbia na preservação de arquivos, Juana Suárez vai compartilhar seus conhecimentos no ensino e na prática de pesquisa e manutenção de acervos a partir de disciplinas ministradas em cursos acadêmicos.

 CÉLINE RUIVO (França) – curadora da Cinemateca Francesa e coordenadora da Comissão Técnica da FIAF

Integrante e coordenadora da Comissão Técnica da Fédération Internationale des Archives du Film ( FIAF) desde 2016 e curadora da Cinemateca Francesa. Trabalhou no departamento de restauração dos laboratórios da Éclair. Criada em 1938, pela Cinemateca Francesa, Film Library do MoMA, pelo British Film Institute e pelo Reichsfilmarchiv da Alemanha, a FIAF desempenhou ao longo dessas oito décadas um papel fundamental para a proteção do patrimônio cinematográfico mundial. Celine vai apresentar a experiência de coordenar um setor estratégico da FIAF.

 Na 13ª CineOP ela participa de duas atividades – vai ministrar o workshop internacional “Fronteiras Internacionais: A Comissão Técnica da FIAF” apresentando ao público a experiência do seu trabalho frente à coordenação técnica desta Instituição que completa em 2018, 80 anos de existência. Seu trabalho consiste na realização de pesquisas, publicações, recomendações e ações de formação em torno de práticas de conservação. E apresenta o estudo de caso do projeto de restauração de O Atalante, longa-metragem inacabado dirigido por Jean Vigo em 1934. Vigo morreu sem conseguir concluir seu projeto mais ambicioso.

 
CASES DE RESTAURO

Anualmente a CineOP apresenta “cases” de projetos de restauração, digitalização e circulação de obras visando apresentar ao público e aos participantes do Encontro Nacional de Arquivos as experiências,  processos e resultados do trabalho realizado no setor que estão possibilitando o acesso aos filmes.  Na 13ª edição do evento, foram escolhidos dois projetos para serem apresentados - o caso do Acervo Capixaba, que reúne a obra documental do cineasta Orlando Bomfim, netto - primeiro cineasta a registrar sistematicamente o cotidiano cultural do Espírito Santo, a partir da década de 1970 em documentários que se tornaram peças importantes do patrimônio histórico e da cinematografia capixabas. Os filmes foram digitalizados a partir de matrizes em 35mm e 16mm depositadas no Arquivo Nacional e também em posse do cineasta.

O restauro do mítico e influente O Atalante (1934), longa-metragem do francês Jean Vigo, é o outro projeto de restauro que será apresentado na programação da 13ª CineOP. O público terá oportunidade de assistir a sessão do filme em cópia restaurada e, no dia seguinte, participar do encontro que irá abordar o processo de restauro do filme com a presença da francesa Céline Ruivo, curadora da Cinemateca Francesa e coordenadora da Comissão Técnica da FIAF e participou do processo de restauração da obra.


PROGRAMAÇÃO

Ao todo, a programação da Temática Preservação em que o 13º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais está também inserido promove sete debates temáticos, quatro Diálogos da Preservação, dois cases de projeto de restauro, uma master class internacional, um workshop internacional, Assembléia Geral da ABPA com a participação de dezenas de profissionais no centro do Encontro de Arquivos que será realizado no auditório do Centro de Artes e Convenções em Ouro Preto. Integra também a programação, a Mostra Preservação com exibição de oito filmes (longas e curtas) divididos em quatro sessões de cinema.

José Quental e Ines Aisengart Menezes
Curadores