NA TEMÁTICA PRESERVAÇÃO DA 13ª CINEOP, EM DEBATE AS FRONTEIRAS DO PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL

Em sua 13ª edição, a CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto, caracterizada pela reflexão e celebração do audiovisual como história e patrimônio, marca o início de uma nova fase do evento que acontece de 13 a 18 de junho, na cidade histórica mineira. Concluído o processo de construção do Plano Nacional de Preservação Audiovisual e de sua apresentação e discussão com diversos setores da cadeia do audiovisual e autoridades públicas que resultou na formulação de um documento que pretende servir de base para uma política pública voltada para a preservação, chegou o momento de estabelecer as bases de um debate mais amplo e articulado entre os diferentes atores da cadeia do audiovisual tendo o patrimônio audiovisual como foco central.

Nesta edição, põe em pauta o conceito de “fronteira” a partir de sua aplicação no universo das imagens em movimento e enfoca questões urgentes e atuais do setor da preservação como as fronteiras entre a indústria, mercado e arquivos, a formação, o uso das tecnologias, o conteúdo, fomento e regulação. Propõe também ampliar o diálogo internacional com a presença de profissionais de destaque na cena contemporânea da preservação visando gerar intercâmbio, troca de experiências, debates e apresentações de projetos de restauro.

“A CineOP está a serviço da preservação do patrimônio cinematográfico brasileiro e tornou-se palco de encontros, discussões e decisões do setor de preservação, que clama por atenção e políticas públicas em um mundo hiperacelerado e tecnológico, que muitas vezes se esquece ou negligencia sua própria história”, afirma Raquel Hallak, diretora da Universo Produção e coordenadora geral do evento.

TEMÁTICA PRESERVAÇÃO

Para a 13ª edição da CineOP, os curadores da temática preservação  José Quental e Ines Aisengart Menezes propõem como tema uma reflexão sobre as “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual”, entendendo que fronteira é um tema central para as sociedades contemporâneas. No contexto do Brasil, discutir fronteiras pode significar refletir sobre os conflitos pela demarcação de terras indígenas, a proteção de reservas biológicas, a expansão (desmedida) das terras para o agronegócio, o asilo de estrangeiros, ou mesmo a separação entre Estado e Religião e as discussões identitárias ou de gênero. Temas bastante importantes e sensíveis em nossa sociedade. No contexto da 13ª CineOP, a proposta  é refletir como podemos pensar as fronteiras do patrimônio audiovisual.

As fronteiras, como diz Régis Debray, são o veneno e o antídoto ao mesmo tempo. Podem inibir ou gerar violência, podem segregar, mas podem também salvar. As fronteiras excluem, mas também protegem. Escondem, mas preservam. Um mundo sem fronteiras seria um mundo perigoso, bem como um mundo de fronteiras imutáveis.

E, se entendemos o patrimônio cultural como um elemento formador de nossa identidade de grupo, de país, pensar como ele participa da construção de certas fronteiras, ainda que provisórias ou porosas, é tema de grande relevância.

Durante o evento as imagens em movimento é que estão em discussão, mas quais imagens, sons, documentos e experiências compõem nosso patrimônio audiovisual? Quais estão de fora? Quais são os seus limites? O que torna patrimônio uma obra? O que está à margem? Qual o papel dos arquivos nesse processo? - estas são as principais questões levantadas pela dupla de curadores e que devem ser ponto de partida para os debates, exibições e estudos de casos a serem apresentados durante a 13ª CineOP na Temática Preservação.

ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS E ACERVOS AUDIOVISUAIS BRASILEIROS

O foco em discutir as “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual” surge com urgência num mundo tecnologicamente avançado e no qual as possibilidades são simultaneamente próximas e distantes o suficiente para gerar preocupação com a manutenção de acervos e materiais das mais diversas fontes. A relevância da preservação como ação estratégica e econômica já surge como algo intrínseco e ponto básico das discussões. O desafio, agora, é avançar nas conversas as levando para resoluções que se apresentem possíveis dentro do atual cenário mundial.

No intuito de sistematizar tantas vertentes do assunto, o evento vai trabalhar eixos de discussões que irão nortear a programação do 13º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros no âmbito da Temática Preservação desta edição da CineOP.  Essas questões serão foco de debates, exibições e estudos de casos a serem apresentadas durante o evento que vai contar com a presença e contribuição de profissionais nacionais e internacionais de destaque na cena da preservação.

  • Fronteiras Políticas e Regionais: Arquivos Fora-do-Eixo, discussão em que se coloca no centro do debate aquilo que comumente parece deixado de lado pelas políticas de preservação: os materiais de arquivo produzidos para além de Rio e São Paulo, em regiões com menos recursos tecnológicos e menos acesso a empresas especializadas; 
  • Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, Produção e Preservação no âmbito Universitário, o debate foco no diálogo se estabelece a partir das experiências de estudos da conservação de filmes nas salas de aula do país e do exterior, algo ainda pouco difundido no ensino regular brasileiro; 
  • Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Malditos e Olvidados, em que serão discutidos os trabalhos audiovisuais deixados à margem dos pensamentos de preservação, seja por seu gênero (erótico), pela bitola não-profissional (8mm, Super 8mm, 9,5mm), pela finalidade específica (filmes pedagógicos, de propaganda, institucionais, científicos, etc.) ou apenas amadores; 
  • Fronteiras entre a Indústria, Mercado e Arquivos: Tecnologias, que vai contar com a participação de representantes de grandes empresas do ramo tecnológico para discutir a relação entre tecnologia e preservação. Considerando que os avanços tecnológicos são importantes para a atuação do setor da preservação, é essencial promover o diálogo e aproximação de grupos e marcas que se dedicam a desenvolver serviços e programas para um setor tão estratégico e fundamental, apesar de quase sempre deixado à margem da cadeia de produtiva. 
  • Fronteiras entre a Indústria, Mercado e Arquivos: Conteúdo, Fomento e Regulação, que apresentará discussões a partir de hábitos contemporâneos de consumo de imagens (TV a cabo, vídeos sob demanda, dispositivos móveis, plataformas digitais) para debater formas de preservação num contexto de maior velocidade e avanços tecnológicos. 
  • Fronteiras internacionais: A Comissão Técnica da FIAF – 80 anos, que vai apresentar o trabalho da Comissão Técnica da FIAF, com a presença da coordenadora da comissão, Céline Ruivo. 

Ao todo, a programação do 13º Encontro Nacional de Arquivos, 7 debates temáticos, 4 Diálogos da Preservação, 2 cases de restauro, uma master class internacional, um workshop internacional, Assembléia Geral da ABPA vão reunir dezenas de profissionais no centro do Encontro de Arquivos que será realizado no auditório do Centro de Artes e Convenções em Ouro Preto. Integra também a programação, a Mostra Preservação com exibição de 8 filmes (longas e curtas) divididos em 4 sessões de cinema.


 PRESENÇA INTERNACIONAL 

A 13a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto vai levar à cidade histórica mineira importantes presenças internacionais para integrarem de uma série de encontros e discussões em torno do conceito central da temática Preservação “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual” aplicado ao universo das imagens em movimento e da restauração e preservação de acervos. Os convidados internacionais desta temática são o norte-americano Bill Morrison, a colombiana Juana Suárez e a francesa Céline Ruivo.


 BILL MORRISON (EUA) – diretor, produtor, escritor e editor

Multiartista que trabalha na fronteira entre as artes plásticas e o cinema. Realiza obras para museus, galerias e salas de exibição de festivais e cinematecas. O principal interesse de seus trabalhos – e que torna o realizador um “artista arqueólogo”, definição constante sobre sua atuação na área – é justamente a preservação, sempre com o uso de fragmentos de filmes, suportes em decomposição e imagens do passado reconfiguradas. Olhando para o cinema como uma reunião de imagens mitológicas, Morrison se vale de incontáveis acervos à disposição para desenvolver seus projetos no audiovisual.

 Na 13a CineOP, o multiartista vai exibir o longa-metragem Dawson City – Tempo Congelado, filme de 2016 que tem percorrido importantes festivais em todo o mundo. Morrison faz uso de uma coleção de 533 filmes, realizados entre as décadas de 1910 e 1920, que estiveram perdidos por 50 anos e foram encontrados numa escavação na região ártica do Canadá. Munido dessas imagens, o cineasta reconta a corrida do ouro na região a partir de registros históricos do Círculo Ártico nunca vistos até então.

 Além da exibição de Dawson City – Tempo Congelado, Bill Morrison vai ministrar uma master class com o tema  “Processo de Criação, Pesquisa e os Arquivos Audiovisuais. No encontro, o norte-americano vai conversar sobre seus trabalhos no uso de imagens de arquivo de diversas naturezas, tanto na conservação quanto na apropriação em trabalhos de montagem e reconfiguração de sentidos que marca a sua obra.


JUANA SUÁREZ (Colômbia) – professora, pesquisadora, crítica, arquivista

Atua com pesquisas na área de arqueologia fílmica, memória audiovisual e estudos fílmicos latino-americanos. Organizadora e participante do APEX (Archival Exchange Program). Professora no departamento de Estudos de Cinema da New York University’s Tisch School of the Arts, Juana vai participar, durante a 13ª CineOP, da mesa de debate com o tema “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Formação, produção e preservação no âmbito universitário”.

Com a experiência de ter trabalhado também no Anthology Film Archives, de já ter ministrado diversos cursos sobre patrimônio audiovisual, de ter coordenado o processo de restauração dos filmes do cineasta colombiano Carlos Mayolo (1945-2007) e de ter atuado na FIAT (International Feferation of Television Archives) e no Ministério da Cultura da Colômbia na preservação de arquivos, Juana Suárez vai compartilhar seus conhecimentos no ensino e na prática de pesquisa e manutenção de acervos a partir de disciplinas ministradas em cursos acadêmicos.


CÉLINE RUIVO
(França) – curadora da Cinemateca Francesa e coordenadora da Comissão Técnica da FIAF

Integrante e coordenadora da Comissão Técnica da Fédération Internationale des Archives du Film ( FIAF) desde 2016 e curadora da Cinemateca Francesa. Trabalhou no departamento de restauração dos laboratórios da Éclair,  participou do processo de restauração de O Atalante, longa-metragem inacabado dirigido por Jean Vigo em 1934. Vigo morreu sem conseguir concluir seu projeto mais ambicioso.

Considerado um mito da vanguarda francesa e um dos filmes de maior influência em todo o cinema mundial, O Atalante terá exibição especial na programação da CineOP, acompanhado de apresentação de Céline Ruivo sobre o processo de restauração e difusão.

Durante a mostra, Céline também vai ministrar o workshop “Fronteiras Internacionais: A Comissão Técnica da FIAF” . Em 2018 a Federação Internacional de Arquivos Fílmicos (FIAF) completa 80 anos de existência. Criada em 1938, pela Cinemateca Francesa, Film Library do MoMA, pelo British Film Institute e pelo Reichsfilmarchiv da Alemanha, a FIAF desempenhou ao longo dessas oito décadas um papel fundamental para a proteção do patrimônio cinematográfico mundial. Celine vai apresentar a experiência de coordenar um setor estratégico da FIAF. Seu trabalho consiste na realização de pesquisas, publicações, recomendações e ações de formação em torno de práticas de conservação, preservação e restauração fotoquímica e digital, no âmbito dos arquivos filiados à FIAF e sobre o qual ela vai apresentar detalhes durante o workshop.


CASES DE RESTAURO

Anualmente a CineOP apresenta “cases” de projetos de restauração, digitalização e circulação de obras visando apresentar ao público e aos participantes do Encontro Nacional de Arquivos as experiências,  processos e resultados do trabalho realizado no setor que estão possibilitando o acesso aos filmes.  Na 13ª edição do evento, foram escolhidos dois projetos para serem apresentados - o caso do Acervo Capixaba, que reúne a obra documental do cineasta Orlando Bomfim, netto - primeiro cineasta a registrar sistematicamente o cotidiano cultural do Espírito Santo, a partir da década de 1970 em documentários que se tornaram peças importantes do patrimônio histórico e da cinematografia capixabas. Os filmes foram digitalizados a partir de matrizes em 35mm e 16mm depositadas no Arquivo Nacional e também em posse do cineasta.

Os curtas-metragens de Orlando Bomfim, netto a serem exibidos são:

Itaúnas, Desastre Ecológico (1979, 8 min.);

Mestre Pedro de Aurora, prá ficar menos custoso (1978, 10 min.);

Ticumbi - Canto para a liberdade (1978, 20 min.);

Augusto Ruschi Guainunbi (1979, 10 min.);

Dos Reis Magos aos Tupiniquim (1985, 10 min.);

 

O restauro do mítico e influente O Atalante (1934), longa-metragem do francês Jean Vigo, é o outro projeto de restauro que será apresentado na programação da 13ª CineOP. O público terá oportunidade de assistir a sessão do filme em cópia restaurada e, no dia seguinte, participar do encontro que irá abordar o processo de restauro do filme com a presença da francesa Céline Ruivo, curadora da Cinemateca Francesa e coordenadora da Comissão Técnica da FIAF  e participou do processo de restauração da obra.