PRODUÇÃO DE FILMES COM UTILIZAÇÃO DE MATERIAIS DE ARQUIVO PAUTAM DISCUSSÕES NA 14ª CINEOP

Os desafios e perspectivas da utilização de materiais de arquivo nas produções brasileiras contemporâneas foram debatidos nas mesas da 14a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto no domingo (9), evidenciando as a importância desse tipo de material para os realizadores. A atuação das mulheres indígenas na frente e atrás das câmeras também esteve no foco das discussões. 

O debate “O patrimônio audiovisual na produção contemporânea” destacou a relevância do cinema de arquivo com a presença dos cineastas Cláudia Nunes, Rodolfo Junqueira Fonseca e Sinai Sganzerla, todos eles com filmes na programação desta edição. Tanto Sinai quanto o cineasta Rodolfo Junqueira Fonseca vieram à 14ª CineOP com filmes familiares. Ela documentou a vida e obra da mãe, a atriz e diretora Helena Ignez, em “A Mulher da Luz Própria”, exibido na noite de sábado, no Cine Vila Rica, e utilizou basicamente material de seu próprio acervo. “Ficam dizendo que ninguém quer saber de filmes de arquivo, mas isso não é verdade. As pessoas se interessam, sim”, frisou. 

Rodolfo, por sua vez, resgatou o registro fílmico preservado mais antigo do Brasil, feito pelo tio-avô, o ouro-pretano pioneiro Aristides Junqueira, nos primeiros anos do século 20. Para produzir “Até Onde Pode Chegar um Filme de Família”, que teve sessão no mesmo dia, no Cine Cemig na Praça. O diretor usou 23 fontes distintas, para além dos poucos minutos de Aristides, além de material de acervos pessoais, de cinematecas e em arquivos de documentos em papel.

 

A preocupação com a memória também foi o elemento chave das demais conversas do Encontro Nacional de Arquivos, explicitando a necessidade urgente de ações de preservação e facilitações de acesso. Isto porque, mesmo que determinados arquivos estejam bem guardados, os realizadores costumam ter pela frente obstáculos burocráticos, familiares e financeiros. Foi o caso da cineasta Cláudia Nunes que, ao procurar imagens para seu média-metragem “Resplendor”, que dirigiu juntamente com Érico Rassi, sobre um centro de detenção indígena no interior de Minas Gerais durante a ditadura militar e apresentado na 14ª CineOP, deparou-se com valores de utilização de acervo que impossibilitaram o uso do material.

 Filmes exibidos na Mostra Preservação foram foco de Estudos de Caso, com mediação da vice-presidente da ABPA e preservadora audiovisual, Débora Butruce/SP. Tom Farkas, neto do produtor, cineasta e fotógrafo húngaro radicado no Brasil, apresentou o Canal Thomaz Farkaz, projeto de resgate da obra cinematográfica de Farkas e apontou a necessidade de atualizar os suportes digitais do acervo, para evitar a defasagem e a consequente perda de acesso, como um dos maiores desafios do programa.

 Já o Estudo de Caso do longa-metragem “O Rio da Dúvida” foi apresentado pelo diretor do filme, o cineasta Joel Pizzini; a produtora do documentário e diretora da Memória Civelli Produções, Patrícia Civelli; Mauro Domingues, arquivista e especialista em preservação audiovisual que contribuiu com a seleção de imagens do acervo do Museu do Índio utilizadas na obra e o conservador-chefe da Cinemateca do MAM, Hernani Heffner. 

Os arquivos foram ainda exaltados no workshop internacional “Cinematecas regionais - O exemplo da Cinemateca da Bretanha”, ministrado pela diretora da instituição, Cécile Petit-Vallaud, e pelo debate “Cineclubes e coletivos: a experiência fomentadora dos anos 70 e 80”. Os dois encontros destacaram a importância da preservação aliada à difusão. Cécile, que cuida de um dos maiores acervos da Europa, apresentou diversas iniciativas de colocar esse material à mostra, desde eventos organizados na cinemateca até a disponibilização de 6.000 filmes através do site oficial da entidade.

 No Brasil, as experiências cineclubistas relatadas pela diretora Dácia Ibiapina e pelo diretor Fernando Severo, respectivamente com o Grupo Mel de Abelha e a Cinemateca de Curitiba (idealizada pelo escritor Valêncio Xavier em Curitiba), trouxeram à luz o quanto esses espaços alternativos revelaram, a toda uma geração de cinéfilos, obras fundamentais da história audiovisual. Destes cineclubes saíram filmes feitos por seus membros que, por muitos anos esquecidos, porém preservados, puderam ganhar a tela desta edição da CineOP, casos de “Aluminosa Espera do Apocalipse” (1980), de Fernando Severo, Rui Vezzaro e Peter Lorenzo, e “O Pagode de Amarante” (1984), de Dácia Ibiapina. 

NA EDUCAÇÃO

Já na temática Educação, o foco foi a presença das mulheres indígenas, que discorreram sobre o impacto do processo de formação audiovisual na vida desta população, durante o debate “As mulheres indígenas e o cinema”. “Mais importante que o resultado, o filme, é o processo, que é empoderador. Esse é pra mim o sentido real do trabalho que desenvolvo”, destacou a cineasta e diretora do Instituto Catitu/SP, Mari Corrêa.

 Evidenciando essa transformação, a realizadora audiovisual indígena e professora na Aldeia Ko’enju/RS, Pará Yxapy, considerada um dos mais importantes nomes do cinema indígena da atualidade, compartilhou com o público a sua trajetória e a importância do cinema para divulgar os conhecimentos dos mais velhos e as nossas vivências para quem é de fora. “Trabalhar com cinema é muito importante para fortalecer nossa cultura e nossa visão sobre o mundo.” 

NA PROGRAMAÇÃO

Na programação de domingo, sessões de filme também movimentaram o evento, com destaque para “Abaixo a Gravidade”, mais recente trabalho do homenageado Edgard Navarro. Também houve exibição de quatro dos seus curtas, além de filmes no Cine Cemig na Praça. Casa cheia também no Sesc Cine Lounge Show, com show da banda Pássaro Vivo e da cantora Julia Ribas.