REGISTROS HISTÓRICOS E FAMILIARES GANHAM AS TELAS, COM EXIBIÇÃO DE DOCUMENTÁRIOS E CURTAS

A exibição de 28 filmes, entre curtas e longas, em seis sessões foi um dos destaques da programação da 14ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto neste sábado, 8 de junho. As produções, distribuídas entre as temáticas Histórica, Preservação e Educação, ganharam as telas dos três espaços ocupados pelo evento: o Cine-Teatro, no Centro de Convenções; o Cine Vila Rica, um dos cinemas mais antigos da América Latina; e o Cine Cemig na Praça, instalado na Praça Tiradentes, um dos cartões portais da cidade barroca, com um traço em comum: parte deles partiu do âmbito familiar para resgatar ou registar uma parte da histórica cinematográfica brasileira. 

A primeira sessão do Cine Cemig na Praça teve um clima especial para os moradores do município, com o documentário “Até onde pode chegar um filme de família”, de Rodolfo Junqueira Fonseca, que resgata a história do mais antigo filme brasileiro preservado de que se tem notícia. A obra se apoia em “Reminiscências”, filme de família gravado pelo ouro-pretano Aristides Junqueira, seu tio-avô, entre 1909 e 1926, para contar a história deste pioneiro do cinema. O trabalho de Aristides só se tornou conhecido na década de 1970, quando foi doado por um neto do cineasta, o historiador Paulo Junqueira Alvarenga, à cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. No mesmo local foi exibido o filme “Carvana”, de Lulu Corrêa, sobre o ator Hugo Carvana, nome forte do Cinema Novo, das chanchadas e das telenovelas brasileiras. 

Quem também conferiu o legado familiar nas telas foi o representante do Instituto Thomaz Farkas, Tom Farkas.  A sessão de curtas do Programa Canal Thomaz Farkas, que leva o nome do fotógrafo e cineasta húngaro radicado no Brasil encheu o Cine Vila Rica. A plateia também se emocionou com a exibição de “A mulher da luz própria”, que rememorou a vida pessoal e a carreira de Helena Ignez, uma das atrizes mais icônicas de sua geração. Ela conferiu a exibição ao lado da filha, Sinai Sganzerla, que dirigiu o documentário. 

PROGRAMAÇÃO ARTÍSTICA

O Cortejo da Arte coloriu as ruas de Ouro Preto, com a participação de grupos artísticos locais, contribuindo com o diálogo entre o evento e a cidade. O passeio atraiu moradores e turistas, que prestigiaram manifestações culturais tradicionais.

 O frio não afastou o público do Sesc Cine Lounge Show. O MC Roger Deff trouxe ao espaço um discurso mais político, enquanto o Chama o Síndico promoveu uma catarse carnavalesca, inspirada nos sons de Jorge Ben e Tim Maia, entre outros representantes da música brasileira. 

DEBATES DE SÁBADO TIVERAM PÚBLICO INTENSO

Se a Temática Histórica da 14a CineOP em 2019 buscou trazer à luz novos apontamentos sobre a dimensão regional da produção brasileira, questionando a noção de “ciclos regionais” feita pelos estudos audiovisuais nas últimas décadas, as conversas deste sábado no Encontro de Arquivos mostraram que a questão está distante de ser solucionada ou de alguma nova sistematização ascender. A mesa “A regionalização e a preservação do cinema brasileiro”, que aconteceu na manhã de sábado (8) no evento, teve fissuras de pontos de vista e estimulou participação atenta da plateia e trocas enriquecedoras entre os convidados. 

Essencialmente, os palestrantes se dividiram entre aqueles que ainda acreditam no recorte regional de estudos da história do cinema e os que enxergam esse modo de pesquisa como impositivo de determinado ponto de vista a partir do “centro” (no caso, o eixo Rio-SP). Não que houvesse desentendimentos, mas cada participante defendeu, a partir de suas experiências, a necessidade de delimitar o olhar sobre a produção de determinados espaços geográficos. O historiador Carlos Roberto de Souza, por exemplo, falou de seu mestrado, feito nos anos 1970, sobre um boom de filmes em Campinas nas primeiras décadas do século 20. Ele disse nunca ter usado o termo “ciclo de Campinas” - ainda que a historiografia já trabalhasse com noções de “ciclo de Cataguases” e “ciclo de Recife”, entre outros, durante seus estudos.

 O convidado apontou que Campinas nunca participou de um “ciclo”, porque sempre contou com a realização de produções (e conta até hoje), mantendo um tipo de continuidade que invalidaria o termo. “Falar em ciclos ou acervos regionais tem o perigo de isolar os conteúdos e de não universalizá-los”, disse. Por outro lado, Lúcio Vilar, professor da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), apontou que a defesa de ciclos regionais definiu determinados espaços geográficos e à omissão de outros. De certa forma, ele disse que a Paraíba não foi “contemplada” nos estudos, por motivos variáveis, e que trazer à tona as pesquisas de recorte regional teria ainda importância. 

Professor na UFJF, Luís Rocha Melo comentou que ainda há importância de se compreender o cinema em termos geográficos e que mesmo uma coletânea de ensaios como “Nova História do Cinema Brasileiro”, que refuta os ciclos regionais da historiografia clássica, acaba por construir outro campo de estudos a partir de delimitações de região. “Esse modo de pesquisar a produção brasileira contribui para uma visão de conjunto. O termo 'ciclo regional' foi criação da própria historiografia. Ele não aparece em publicações da época desses filmes (anos 1920 e 30). Foi criado a posteriori, e a gente é que precisa lidar com ele”.

 O entendimento da regionalização, seja de que forma ela se manifestar, depende sempre da difusão. Assistir aos filmes é essencial para que se compreendam seus recortes de tempo e espaço, de história e geografia. O encontro de programadores ocorrido na tarde de sábado reuniu profissionais que trabalham em espaços de exibição desvinculados do mercado, como o MIS-PR (Museu da Imagem e do Som do Paraná), MIS-Campinas, Cinemateca Capitólio (Porto Alegre) e MAM-RJ (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro). Todos apresentaram suas formas de trabalho e as tentativas de atraírem públicos renovados. O que se sentiu da conversa é que, apesar do péssimo momento pelo qual passa o Brasil no cenário econômico e cultural, a força está na crença de que o interesse pela arte surge de iniciativas atraentes, que não subestimam o público potencial e propõem que ele viva novos tipos de experiências audiovisuais.

 O caso da Cinemateca Capitólio, mais recente dentre os órgãos representados na mesa “Difusão do patrimônio audiovisual e formação de plateias regionais” e pertencente à prefeitura de Porto Alegre, mostrou ao público que um prédio histórico localizado no centro de uma grande capital brasileira pode se tornar referência em difusão e valorização do espectador. “A sala mantém sessões de terça a domingo, com quatro horários, e promove atividades também de educação audiovisual diretamente com crianças e parcerias com mostras, festivais e cineclubes”, destacou Marcus Mello, crítico e programador que esteve à frente da Cinemateca de Capitólio nos seus primeiros anos desde a revitalização em 2014.

 Hernani Heffner, conservador-chefe da cinemateca do MAM-RJ, afirmou que alguns desafios se impõem ao trabalho de difusão, como o “elitismo do cânone”, que tenderia a repetir os mesmos tipos de filmes e realizadores já legitimados pela história, e a propalada “morte do cinema”, simbolizada pelas infinitas novas possibilidades de consumo do audiovisual em tempos de streaming e plataformas móveis.

 Na mesa “Circuitos regionais e cinema independente”, o cineasta mineiro Sylvio Lanna, realizador de Sagrada Família (1970), um dos grandes trabalhos brasileiros no período, defendeu a “difusão caligráfica” do cinema, pequenos gestos de visibilidade que se aproveitem das novas tecnologias e da singularidade de cada núcleo interessado em mostrar aquilo que acredita ser importante. A exaltação de Lanna encontra eco nas iniciativas públicas de instituições de guarda de filmes que se preocupam em pôr em circulação o que elas próprias armazenam. 

Alice Dubina Trusz, historiadora e pesquisadora, relatou a experiência de “Verdes Anos” (1984), produção gaúcha de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, como exemplo de movimento independente que alterou o estado das coisas em Porto Alegre, revitalizando o modo como se fazia cinema no estado. O caso de “Verdes Anos” serviu de modelo para algo apontado pelo cineasta Sérgio Péo, na mesa da tarde, de que a união das emoções e dos afetos precisa ser um ponto de saída e solução para os impasses que a conjuntura impõe. Dessa união, novos movimentos teriam força para surgir. 

NA EDUCAÇÃO – FORÇA DAS MULHERES E VIVÊNCIAS DE COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

A presença das mulheres negras na frente e atrás das câmeras foi questionada no debate “As mulheres negras e o cinema”, também realizado neste sábado. O bate-papo, mediado pela pesquisadora Kassandra Muniz, apresentou três diferentes perspectivas: de quem trabalha na produção audiovisual, de quem é retratada por essas produções e de quem faz uma análise crítica e histórica desses filmes. Estes eixos foram representados, respectivamente, pela arte-educadora e realizadora audiovisual mineira Alexia Melo; pela coordenadora do projeto Kizomba/MG, Makota Kidoiale; e pela pesquisadora e curadora carioca Janaína Oliveira

As participantes destacaram a potência das imagens cinematográficas como instrumento privilegiado para auxiliar na construção da identidade, no reconhecimento e na representação dos corpos e narrativas negras. “O cinema deve deixar com possamos nos mostrar e dar visibilidade ao nosso modo de vida, que reproduz cultura, conhecimento, saúde, cuidados e natureza”, destacou Makota Kidoiale

A forma como o cinema retrata a população negra, por meio de imagens estereotipadas e preconceituosas, a falta de protagonistas negros e o número ainda pequeno de realizadoras negras ao longo da história do cinema brasileiro, também foi criticada. “Sempre me incomodei com a expressão ‘dar voz para alguém’. Essas pessoas existem por se só e sempre tiveram voz, mas essas vozes são continuamente silenciadas e distorcidas”, ressaltou Alexia Melo.

 As possibilidades de aproximações, de diálogos, de práticas e de políticas de intercâmbio latino-americano estiveram no foco do debate “Cinema e Educação: Cooperações na América Latina”, que também integrou a temática Educação. A uruguaia Graciela Acerbi apontou que há ainda alguns desafios que precisam ser superados nesse processo de cooperação internacional, como “a pesquisa e a teorização como funções de ensino, já que nem todos os professores envolvidos têm formação específica em audiovisual”. 

Um dos mais recentes frutos dessa da construção da cooperação entre países da América Latina é a série de curtas “A Esperança Transforma (Hope Works)”, experiência apresentada pela especialista em Educação e Mídia e diretora de Educação, Comunicação e Cultura da TV Escola, Regina de Assis. O projeto conta com recursos adicionais de aprendizado destinados a inspirar os valores de bondade, compreensão e esperança em crianças de todo o mundo. “Cada um dos participantes faz um capitulo e recebe um de cada uma das 12 produtoras participantes do projeto, num verdadeiro escambo do bem”, explicou. 

O encontro, mediado pela professora e pesquisadora Ana Lúcia Azevedo, também reuniu a argentina Clara Inés Suárez, do Festival Cine a La Vista; a também uruguaia Carmen Carvanese e a paranaense Solange Stecz, do programa educação audiovisual na formação de docentes.