TROPICÁLIA, DEBATES SOBRE EDUCAÇÃO E HISTÓRIA E SESSÕES DE CINEMA SÃO DESTAQUE NA 13ª CINEOP

A presença do músico Tom Zé, um dos ícones da Tropicália, movimento presente na temática histórica da 13ª CineOP, lotou o hall do Centro de Artes e Convenções neste sábado, 16 de junho. O artista, que também se apresenta à noite, no palco do Sesc Cine Lounge, participou de uma roda de conversa com o público, no qual relembrou as origens do movimento tropicalista e a efervescência de uma geração baiana que se revelou no final dos anos 1960.

O artista exaltou “o profundo ambiente de educação que se instalou na Bahia nas décadas anteriores à explosão tropical”.  “Naquela época éramos um bando de gente fazendo a música que a gente tinha vontade. Não fazíamos ideia de que estava sendo criada alguma coisa, algum movimento”, contou Tom Zé, que divertiu a plateia com suas histórias, memórias e comentários sarcásticos sobre o país e o universo cultural. A atividade foi realizada por meio da parceria cultural com o Sesc.

Ainda nesta quarta-feira, o cineasta norte-americano Bill Morrison, uma das principais presenças do evento, ministrou uma master class, apresentando detalhadamente alguns de seus trabalhos com materiais de arquivo e imagens de cinema do passado para reconfigurar o sentido expressivo daquilo que ele faz. Morrison exibiu diversos curtas-metragens e trechos de projetos seus, além de comentar a feitura do longa “Dawson City - Tempo Congelado”, exibido na noite anterior.

Já nas discussões do Encontro da Educação, Karen Rechia, professora do Colégio de Aplicação da UFSC, fez uma intensa defesa do papel do professor na escola pública. Ela exemplificou com a história dos Colégios de Aplicação, criados como instituições modelo para experimentação e inovação pedagógica. Posteriormente, estas escolas passaram a ser criticadas, até mesmo no ambiente acadêmico, sendo considerados espaços fora da realidade da educação brasileira. “Aquilo que deveria ser direito de todos, passou a ser considerado privilégio do Colégio de Aplicação, que passou a não ser considerada uma escola real. Então, os professores não seriam também professores reais?”.

Rechia destacou que essa segregação acontece também entre professores universitários e os de escolas públicas. “É como se não fôssemos todos professores, como se não estivéssemos todos engajados na educação”. “Esta característica do ânimo, do estímulo do lugar nos atinge de uma forma física e é uma coisa da qual a gente participa de uma forma quase musical. O filme tenta buscar a escola com um lugar para se cultivar o ânimo estudioso a partir da construção de uma realidade em que se possa fugir de uma temporalidade da utilidade do tempo, do tempo aproveitado e do tempo morto”.

Pela Temática Histórica, a mesa sobre as potências e limites da vanguarda tropical trouxe os comentários de Carlos Adriano, cineasta que trabalha com imagens de arquivo e é influenciado pelos movimentos vanguardistas da arte. Em sua fala, ele questionou o próprio conceito: “A ideia de vanguarda se define por uma negativa, mesmo sendo um movimento positivo. E isso não é muito saudável. Para entender uma tradição, é interessante repensar esses caminhos”.

Adriano recorreu à historiografia do cinema brasileiro para apontar a falta de uma tradição experimental: “Se pensarmos em antecedentes mais remotos, possíveis fundadores do cinema experimental e de vanguarda, tem ‘São Paulo – Sinfonia de uma metrópole’ (1929) e ‘Limite’ (1931). São problemáticos para inserir numa tradição. Acho complicado a gente trabalhar com esse conceito muito puro de vanguarda ou usar os transplantados do cinema norte-americano ou europeu. Nossa própria filmografia cria essa dificuldade, que é também uma qualidade, uma personalidade”.

O DOMINGO NA CINEOP - DEBATES

A primeira atividade deste domingo (20/6) na 13ª CineOP é o workshop internacional “Revelação da Escola”, com o professor e filósofo espanhol Jorge Larrosa, no auditório II. O encontro, que tem início às 9h, vai tratar de cinema e arte como procedimentos para revelar ou trazer à presença a materialidade e forma da escola (seus espaços, seus tempos, seus objetos, suas atividades, seus sujeitos, seus gestos). A mediação é da curadora da Temática Educação, Adriana Fresquet.

No auditório I, às 9h30, o Encontro de Arquivos promove o debate “Fronteiras do Patrimônio Audiovisual: Malditos e Olvidados”, com Juçara Palmeira (arquivista da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, RJ), Fernanda Maranhão (antropóloga, Museu Paranaense, PR), Paola Prestes Penney (documentarista e doutoranda da ECA-USP, SP) e Remier Lion (pesquisador, RJ), com mediação de Thais Blank. A mesa vai refletir sobre os rumos da produção de imagens tidas como “inferiores”, seja por seu gênero (erótico), seja por sua bitola não profissional (8mm, Super 8mm, 9,5mm etc.), seja por ter uma finalidade específica (filmes pedagógicos, de propaganda, institucionais, científicos, etc.), por serem amadores ou mesmo por não se encaixarem em alguma categorização legitimada.

A discussão segue às 11h15, com a mesa “Fronteiras Políticas e Regionais: Arquivos Fora do Eixo”, com Betty Lacerda (coordenadora geral do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira – Cehibra, da Fundação Joaquim Nabuco, PE), Denize Gonzaga (diretora de Acervo da Associação Cultural Cinemateca Catarinense, SC), Ester Kimura (gerente de Tratamento e Preservação de Acervo Audiovisual do Arquivo Público do Distrito Federal, DF) e Marcos Sabóia (acervo da Cinemateca de Curitiba, PR), com mediação de Simone da Invenção Lopes (coordenadora do Núcleo de Memória do DIMAS/FUNCEB, BA). A conversa trata da construção de uma política nacional de preservação audiovisual que leve em consideração as especificidades de cada região do país pelo conhecimento dos acervos, suas histórias, dificuldades e estratégias de ação.

Às 17h30, já depois da transmissão do jogo Brasil x Suíça no Sesc Cine Lounge Show (marcado para as 15h, mais informações abaixo), dois encontros continuam o Seminário: no auditório I, acontece os Diálogos da Preservação, com “O Modelo da Gestão via Organizações Sociais”, com Alvaro Malaguti (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) e Laura Bezerra (professora do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da UFRB, Bahia); e no auditório II, a segunda sessão de projetos audiovisuais educativos comunitários selecionados com foco na Temática Educação, “Escolas: Memórias do Futuro”.

FUTEBOL NA CINEOP

A CineOP abre espaço em sua programação para outra paixão nacional, o futebol, no domingo, 17 de junho. A partir das 12h, o Dj Braz Mitchell abre o espaço do Sesc Cine Lounge Show  para dar início à concentração com muita animação. Às 14h, o público poderá conferir a intervenção artística do PPFC – Perna de Pau Futebol Clube, que vai disputar uma emocionante partida de futebol em cima de penas de pau. A estreia do Brasil na Copa do Mundo, em partida contra a Suíça, será transmitida ao vivo, a partir das 14h30, nos telões no Sesc Cine Lounge Show.

LANÇAMENTO DE LIVROS

O domingo será marcado também pelo lançamento de títulos fundamentais para a história e análise do cinema e dos eixos temáticos da CineOP, História, Preservação e Educação, a partir das 13h45, no Hall de Convivência do Centro de Artes e Convenções. São eles: “Filmes históricos no ensino de história”, de Arthur Versiani Machado; “História em movimento: os Cinejornais de Minas Gerais” (Realização Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte / Fundação Municipal de Cultura, organizado por Isabel Cristina Felipe Beirigo; “Nova História do Cinema Brasileiro I e II”, organizado por Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarman, “Pessoas com necessidades especiais no cinema”, organizado por Margareth Diniz, Mônica Maria FaridRahme, Inês Assunção de Castro Teixeira e José de Sousa Miguel Lopes; e Ver e Ver Como – Cinema, Filmes e Cineastas Marcantes”, escrito por Humberto Pereira da Silva.

 O convidado espanhol Jorge Larrosa, referência em Educação, fará o lançamento de “Elogio da Escola” , em que apresenta diversos exercícios de pensamento (textos, filmes e exposições), que tentam trazer ao mundo aspectos da escola, do estar na escola, do ordinário da escola, de uma memória escolar em suas atualizações, do chiaroscuro no cotidiano escolar, de tudo o que ainda faz com que a escola exista como lócus para um espaço público e um tempo livre.

 NOS CINEMAS

A partir das 18h, começam as sessões de cinema do sábado, no Cine Vila Rica, com a Mostra Histórica, que exibe três títulos da temática “Vanguarda Tropícal”: “Alma no Olho” (Zozimo Bulbul, 1973), “Terror da Vermelha” (Torquato Neto, 1972) e “O Ataque das Araras” (Jairo Ferreira, 1975). Em seguida, no mesmo local, mais uma sessão de curtas, agora da Mostra Contemporânea, às 19h15, com cinco filmes de produção recente.

 Dois longas-metragens fecham a noite no Cine Vila Rica: às 20h15, a cópia restaurada de “O Atalante” (1934), do francês Jean Vigo, em sessão especial da Mostra Preservação dedicada ao crítico Paulo Emilio Sales Gomes e com apresentação da convidada internacional Celine Ruivo, da Cinemateca Francesa; e, às 22h, o brasileiro “Caveira My Friend” (1970), de Álvaro Guimarães, dentro da Mostra Histórica.

 Ainda às 20h30, no Cine Praça, a Mostra Contemporânea exibe o curta “Pontos Corridos”, de Julio Bezerra, e o média “Guigo Offline”, de René Guerra.

 FESTA

A programação de sábado se fecha na Noite Tropicália 4, no Sesc Cine Lounge Show, a partir das 22h, com apresentação de DJ Carou, Baianeiros e a Festa Transa!.

 EXPOSIÇÃO

De 13 a 18 de junho, período de realização da 13ª CineOP, o público terá a oportunidade de conferir uma exposição preparada especialmente para o evento. Instalada em painéis e estruturas, a exposição apresenta, em imagens, fotos e textos, as Temáticas Preservação, Fronteiras do Patrimônio Audiovisual; História, Vanguarda Tropical: Cinema e Outras Artes; e Educação, Escolas: Memórias do Futuro. Em destaque, a homenageada desta edição, a atriz Maria Gladys. A mostra estará em funcionamento no Hall do Centro de Artes e Convenções (dia 13, a partir das 18h; de 14 a 18 de junho, das 10h às 19h).