Homenagem - Edgard Navarro

Acorda, humanidade!

Edgard Navarro é um personagem paradigmático das desventuras do cinema brasileiro. De um lado o herói desse enredo é o apaixonado pelo desvio social, um homem fragmentado, revoltado, um iconoclasta dividido na polaridade da melancolia e da alegria violentas, que defeca nos monumentos históricos, autoritários e nas regras morais;por outro lado é um místico selvagem, um são Francisco de caráter ambivalente, filho de Exu, plenamente obstinado em fazer de sua missão e mensagem uma imagem transfigurada da utopia, de uma presença física e intensidade espiritual livre que o poder muitas vezes não perdoa. Ele vê o mundo como é e, a partir disso, imagina o que o mundo poderia ser. Nessa aposta da profecia a partir do horror e da beleza, do prazer e da imaginação, da entrega erótica e da pulsão de morte, ele está ao lado de outros de nossos grandes: Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira, Ana Carolina, Carlos Reichenbach e José Mojica Marins.

Nosso homenageado começa no cinema no Super-8 baiano, na década de 1970, e se torna o seu artista mais emblemático.  Em um momento do cinema brasileiro pródigo em rebeldes, Edgard Navarro foi um dos cineastas mais férteis com uma potência poética marcante. Seu trabalho foi a afirmação de um lugar de radical independência dos modelos estandardizados da cultura e do cinema. Se levarmos em consideração que nos anos 1970 havia no Brasil uma indústria de cinema com sucessos regulares de bilheteria, a contingência que localizava Navarro “fora do mercado” o colocava em uma posição antioficial e antissistêmica, menos por romantismo da marginalidade e mais por condição limítrofe. A sua trilogia delirante, arquetípica e psicanalítica (oral-anal-genital),Alice no País das Mil Novilhas (1976), O Rei do Cagaço (1977) e Exposed(1978), compõe em conjunto um manifesto destruidor do imaginário simbólico da ordem. O falocentrismo do culto à ordem na ditadura militar em Exposed era demolido com agressividade debochada. Anos depois ele faria um filme súmula dessa obsessão: Superoutro(1989), talvez seu trabalho mais cultuado.

Porta de Fogo (1982) e Lin e Katazan (1986) não são escatológicos, mas não por isso menos intensos. Em ambos a expressão mais verdadeira da realidade social está atravessada pelo delírio, pelo sentimento do absurdo. Em Porta de Fogo, o guerrilheiro Lamarca é como um Cristo em seus quarenta dias no deserto encontrando Deus e o Diabo na Terra do Sol. Em Lin e Katazan, um embate do patrão em ódio irracional contra o empregado.

Entre tantos filmes que Navarro fez (curtas e médias, sobretudo), ele também tratou de seu campo íntimo de atividade artística que é o cinema baiano. Na Bahia Ninguém Fica de Pé (1990) e Talento Demais (1995) são retratos irônicos e desencantados com a realidade e a dificuldade do cinema baiano em conseguir existir.

Sua estreia no longa-metragem foi tardia com o belo e memorialístico Eume Lembro (2005), que ganhou o candango de Melhor Filme em 2005 no Festival de Brasília. O Homem que Não Dormia (2011) ajudou a afirmar (e consolidar) Edgard Navarro como um de nossos grandes cineastas. Não que precisássemos da confirmação de algo que já era evidente muito anteriormente, mas os seus três longas-metragens (Abaixo a Gravidade, de 2017, é seu último filme) o colocaram no circuito de legitimação do cinema brasileiro, chamando a atenção de um público e de uma crítica que talvez tivessem pouco contato com sua obra pregressa.

O percurso do autor conta mais de quatro décadas e apesar das mudanças que respondem à realidade criativa e econômica de sua época, há recorrências simbólicas (mais do que formais) que delineiam a singularidade de uma obra que estranhamente soma gentileza e agressividade debochada.

Vendo os filmes em conjunto, aquilo que poderia ser meramente anedótico, a escatologia, se torna matéria de uma constelação arquetípica da nossa civilização vista desde as ruínas da paisagem solar do Brasil (um país continental) e da Bahia (um pequeno país). Na perspectiva freudiana, como gosta o próprio Navarro, o seu alvo é a civilização dos filhos da cultura anal (enfezada, do esfíncter reprimido) na relação perturbada com as suas merdas.

Navarro concebe o conceito político do “cu”, do esfíncter anal. Por exemplo, Bertrand, em Abaixo a Gravidade, é enquadrado pelo poder e sofre a retenção anal do reprimido que não superou a fase anal, um homem como “deve ser”; organizado, “limpinho”, funcionário do dinheiro e das aparências (patético, esconde a careca com uma peruca).

Edgard Navarro nos atualizou emsua obra o filósofo Diógenes, ou melhor: encontrou na rua, na realidade e no inconsciente o “estar” antes do “ser” preconizado pelo filósofo grego. Diógenes, três séculos antes de Cristo, se tornou um mendigo e morava nas ruas de Atenas, dentro de um barril, fazendo da pobreza uma virtude. Ele costumava ridicularizar ricos e foi acusado de se masturbar em público, urinar sobre as pessoas que o insultavam e, em vez de emitir discursos que tentavam explicar a vida ou disputar o poder, defecou em praça pública. Na natureza não encontramos nada do que devamos nos envergonhar, dizia ele.

Personagens como o louco da rua de SuperoutroeMierre e Galego de Abaixo a Gravidade elegem a existência antes das qualidades, a realidade antes do bem e do mal. Esses, mais o padre no final de O Homem que Não Dormia e o rei do cagaço do filme do mesmo nome, optam por um gesto fundamentalmente existencial: “se tudo está na merda, há esperança”. Se liberam da retenção do esfíncter e assim atingem a plenitude do ser, ao passo que outros de seus heróis, como Bené e Bertrand de Abaixo a Gravidade, estão “enfezados”, com desejo reprimido. Mas como o criador, é generoso (sempre) e permite que os enfezados se liberem e alcem voo. Como escreveu o filósofo Peter Sloterdijk, “compreender o cu é a propedêutica somática”.

A imagem iconoclasta, violenta, das fezes sendo liberadas com frontalidade em O Rei do Cagaço e Superoutro, mas com reverberações em seus vários filmes do diretor, tem no cu a imagem do mundo visto debaixo, uma imagem plebeia e realista.

A homenagem a Edgard Navarro não só reconhece uma obra de beleza única e original no cinema brasileiro, mas também coloca em evidência uma figura luminosa que precisamos nesses tempos difíceis que seguem. Na cosmogonia dos seus filmes, a sua compreensão do país fala tanto ao aos nossos traumas originais desde 1500 e à ditadura militar quanto aos tempos atuais, na dinâmica inevitável da repressão-liberação, de ir de cabeça na sujeira, de enfrentar o lixo, de olhar para o mais profundo de nós mesmos sem perder a potência do Eros. A trajetória de sua obra não nos revela só um testemunho sobre o Brasil dos últimos quarenta anos, mas se afirma como uma artilharia poética, visionária e provocativa à violência do poder. Como o protagonista em Superoutro nos avisa: “Acorda, humanidade!”.

 Francis Vogner dos Reis
Lila Foster
Curadores