Registros da história e uso de arquivos

No ambiente online, a Mostra Contemporânea apresenta duas sessões conceituais com curtas-metragens que dialogam frontalmente com as principais características da Mostra de Cinema de Ouro Preto. A sessão “Preservar a História e seus Registros” é composta por cinco curtas em que a recuperação de registros conduz a outras leituras da nossa história. A sessão “Usar e Remontar Arquivos” engloba quatro curtas que, por meio do manejo criativo de acervos, criam diferentes formas de pensar e fazer cinema.

Na primeira sessão, Quem de direito, de Ana Galizia, foi realizado em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens, a partir de mapas, fotografias e áudios de moradores envolvidos nas mobilizações populares de acesso à terra no vale do Guapiaçu, no Rio de Janeiro. Ressaca, de Andrea França, é um ensaio sobre o Passeio Público, dos anos 1920, no espaço urbano carioca, montado com imagens de Alberto Botelho e Silvino Santos, além de fotografias de Marc Ferrez e Augusto Malta.

Com direção e roteiro de Rafael Luan, Ensaio sobre abismos ou as imagens que resgatei de algum lugar da minha mente reflete sobre o modo como a mídia cria imagens e expõe a violência contra a população negra no Brasil. Carta para Glauber, de Gregory Baltz, intercala imagens de Barravento, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe com a leitura de uma carta de Gustavo Dahl para o cineasta Glauber Rocha. A sessão encerra com Cinzas digitais, de Bruno Christofoletti Barrenha, um ensaio agonístico em torno de uma história que se repete com os diversos incêndios na Cinemateca Brasileira e a consequente perda da memória do nosso cinema.

A segunda sessão começa com A viagem sem fim, co-direção de Priscyla Bettim e Renato Coelho, que são tomados pelo gesto de remontar O Descobrimento do Brasil (1937), de Humberto Mauro. A realizadora e pesquisadora Andrea França inspira-se nos diferentes filmes de sinfonias urbanas filmados no início do século 20 para montar Vermelho Guanabara com duas telas simultâneas.

Juliana Fausto escreveu A cosmopolítica dos animais que inspirou seu curta homônimo co-dirigido com Luisa Marques. Com imagens de animais de diferentes espécies, a montagem experimenta lugares possíveis para a construção de uma política animal. Em A ordem reina, Fernanda Pessoa é instigada pelo texto de Rosa Luxemburgo a revisitar sete países que tiveram experiências históricas revolucionárias: Burkina Faso, China, Cuba, Guiné-Bissau, Rússia, Sérvia e Vietnã.

Camila Vieira

Curadora