A URGÊNCIA DA PRESERVAÇÃO DA HISTÓRIA RECENTE DO BRASIL, A SUPERAÇÃO DA CRISE CULTURAL E O OLHAR PARA O FUTURO PELA EDUCAÇÃO PAUTARAM AS CONVERSAS DURANTE A 16ª CINEOP

A 16a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto foi realizada pelo segundo ano em formato virtual, o que acarretou alterações em seu fluxo, mas manteve efervescente o nível dos debates, das sessões de filmes, das masterclasses e mesmo das relações remotas proporcionadas. Os chats de cada transmissão se tornaram pontos de encontro dos participantes, reproduzindo, a seus modos, o que anualmente se vê na cidade histórica de Ouro Preto nos dias de realização do evento – que, espera-se, logo voltará a seu formato original.

Em certa medida, a manutenção do formato virtual reforçou alguns dos pontos que estavam na pauta de 2021 na CineOP: a urgente atenção à manutenção de conteúdo criado digitalmente. Num mundo cada vez mais tecnológico, nunca se produziram e se consumiram tantas imagens. O que fazer com elas? Como guardá-las? Onde preservá-las? Mantendo a força de eixo de História, Preservação e Educação, a CineOP expandiu essas questões numa série de atividades que hora ou outra sempre retornavam a questões essenciais relativas ao contemporâneo imagético.

Alexandre Rocha, sócio-diretor da Afinal Filmes, empresa da iniciativa privada que tem se especializado em trabalhos de restauração, deixou claro ser fundamental que o Estado seja a ponta mais forte do processo. “Para determinados tipos de trabalho é importantíssimo e fundamental que se tenham as ferramentas certas, os instrumentos certos, as máquinas certas, e isso quem deveria ter é a Cinemateca, é o MAM, é o CTaV, instituições cuja responsabilidade é zelar pelo patrimônio histórico brasileiro. Eu entendo que uma empresa jamais vai substituir essas instituições, e sim pode ser perfeita para trabalhar em parceria, com as devidas especializações”, disse ele.

Em se tratando de produções de mídia com caráter de urgência – que não passam pelas questões artísticas e de criação, e sim como registro da história acontecendo literalmente no momento da câmera ligada diante dos fatos -, a CineOP contou com a presença de Priscila Néri, integrante da Witness, entidade não-governamental que lida diretamente com o vídeo como ferramenta de defesa dos direitos humanos. Com quase 30 anos de atuação, a Witness reúne atualmente 135 países, 570 parceiros e já capacitou mais de 11 mil pessoas no uso do audiovisual para fins de militância política e social. “Muita coisa mudou nesse tempo e nosso problema hoje não é mais o acesso a equipamentos, e sim o volume de conteúdo e como entender as novas perspectivas e histórias e narrativas as quais temos acesso em escala cada vez maior”, alertou.

Em sua fala, Priscila comentou ainda da importância de guardar esse acervo que, diariamente, se espalha pelo mundo registrando situações de conflito e perigo. “Para preservar esses conteúdos, precisamos enfrentar uma série de questões, de ordem técnica, como obsolescência de formatos; éticas e de segurança, devido a conteúdos que podem colocar pessoas em riscos físicos, jurídicos ou psicossociais; e de sustentabilidade, a partir da clareza de propósitos, confiança e recursos humanos numa determinada realização”, enumerou ela. A complexidade de se lidar com esses conteúdos reapareceu por diversas vezes em mesas da CineOP, não só especificamente sobre o assunto, mas como uma preocupação geral que se faz presente diante da força das imagens espalhadas em questão de segundos pelas redes.

Inclusive o papel dos grandes conglomerados (YouTube, Facebook, Instagram, Google, WhatsApp) foi levantado por Anápuàka Tupinambá, produtor independente na Rádio Yandê e Rede Cultura Digital Indígena. Para ele, a partir do momento em que se publica algum material numa dessas redes, o conteúdo deixa de pertencer ao usuário e passa a ser propriedade das empresas, correndo constantemente risco de ser derrubado, de se perder num eventual bug ou de se perder na quantidade imensa de dados a circular. A efemeridade de conteúdos em determinadas plataformas (como os “stories” do Instagram, que duram apenas 24 horas) e a falta de garantia de que uma plataforma vá existir indefinidamente foram outros pontos levantados.

Para Dalton Martins, professor da UnB e integrante do Projeto Tainacan (ferramenta de código aberto que facilita e otimiza a gestão de acervos de arquivos, bibliotecas e cinematecas), o que configura um acervo digital é também a atmosfera de interação e navegabilidade. “Quando falamos de uma mídia social, falamos basicamente de três coisas do ponto de vista sistêmico: os dados gerados pelo usuário, os dados comportamentais de interatividade e os algoritmos”, afirmou. A produtora e ativista da Mídia Ninja reforçou que uma outra história está sendo construída a partir de vídeos de militância e denúncia, graças às facilidades técnicas de produção de imagens. “Estamos numa era da internet digital em que se está contando a história de um país num contexto de efervescência global através de inúmeros formatos. Como manter essa produção, que nos chega de forma picotada, fragmentada?”.

OS ANOS 1990

Discutindo “Memórias entre diferentes tempos”, a 16a CineOP olhou para o cinema brasileiro dos anos 1990 em busca de pontos de contato com a situação crítica na qual passa neste começo dos anos 2020. Se no governo de Fernando Collor de Mello a produção foi quase a zero com o fim da Embrafilme, no governo Jair Bolsonaro todas as instâncias de fomento (como Ancine, Fundo Setorial do Audiovisual e outras) estão paralisadas, sem perspectivas de serem retomadas ou aprimoradas. O risco é de um novo apagão no cinema brasileiro. O contexto de 1990 foi um dos pontos de mais conversa entre participantes da mostra este ano.

O crítico Luiz Zanin Oricchio, contratado pelo jornal “O Estado de São Paulo” em 1990, contou ter sido constrangedoramente pautado pelo veículo para cobrir o Festival de Brasília. “Era uma época de total desprestígio pela produção nacional”, disse, em referência a uma das consequências da extinção da Embrafilme. “As primeiras medidas de incentivo fiscal a partir de 1993 marcaram a chamada Retomada, que desembocaram na Lei do Audiovisual”, lembrou. Em 2003, Zanin publicou o livro “Cinema de Novo: Um balanço crítico da Retomada”, no qual analisava os filmes do período. Na pesquisa, detectou o interesse grande dos cineastas em fazerem ficções de viés histórico, olhando o passado do país. “Esse resgate materializava alguma coisa que estava no ar e era bastante significativo, que era um certo desprezo e deboche em relação à identidade brasileira, um conceito que eu acho muito complicado, e esse deboche aparecia com muita força num filme como ‘Carlota Joaquina’”.

A pesquisadora Sheila Schvarzman acredita que vários dos filmes da Retomada tinham abordagens que antecipavam algumas percepções a vigorar na sociedade e no imaginário brasileiro e que ganharam respaldo nos últimos anos sem constrangimentos. “A gente está falando a partir do nosso agora, são nossos sentimentos que são colocados hoje nesses filmes do passado. Alguns deles apontavam o que nós, estarrecidos e inconformados, vivemos nos dias atuais, mas não enxergávamos, em relação aos rumos do país e da democratização”, apontou Sheila. Preocupações de retratação histórica, registros de arquivo, usos ingenuamente politizados do imaginário do torturador do regime militar e alguns olhares de resgate histórico puderam ser vistos desde em comédias como “Carlota Joaquina” a dramas de peso oficialesco como “Mauá – O Imperador e o Rei”.

“Carlota Joaquina”, lançado em agosto de 1995, é um símbolo do período da Retomada por ter sido o primeiro filme brasileiro a alcançar mais de um milhão de espectadores depois do fim da Embrafilme. O longa surgiu como um reativador das memórias da diretora Carla Camurati. “Eu não sabia que faria um filme sobre a Carlota. Era uma personagem que sempre me impressionou na infância”, relembrou. Ela encontrou na linguagem e no aspecto satírico uma maneira de contar parte da história brasileira não exatamente ligada ao que ocorreu de fato, mas sim fazer como paródia. O sucateamento do cinema nos anos 1990 foi fator decisivo para o tom do filme. “Eu não tinha dinheiro para fazer um filme realista. Não tinha como ficar falando de como o Brasil foi um país maltratado, usurpado. Então eu queria falar disso pela comédia”.

Também retomando o Brasil do passado – no caso, o ano de 1905 – , a diretora Ana Carolina foi outro nome importante na época com seu “Amélia” (2000), filme que teria sido lançado no começo dos anos 1990 não fosse a ascensão de Collor. “Eu peguei o ‘grande não’. Foram dez anos recebendo não: não tinha equipamento, não tinha equipe, não tinha nada. Foram anos horrorosos que infelizmente estão se repetindo”, lamentou a cineasta.

FUTURO NA ESCOLA

O entendimento de que a educação audiovisual deve ser um braço indispensável das cadeiras escolares seguiu sendo outro dos pontos sempre debatidos nas edições da CineOP. Convidado internacional, o professor da Universidade do Chile Nicolás Guzman Martinez, responsável pelo projeto “Cero en Conducta”, exaltou a importância de compreender as crianças como figuras ativas no processo de ensino, de utilizar os filmes para permitirem um espaço de rebeldia aos estudantes, no sentido da liberdade criativa e inventiva. “É uma mudança de mentalidade e é uma coisa que tentamos levar para o programa. Queremos que os estudantes tenham a possibilidade de enfrentar o mundo, e as nossas oficinas têm o objetivo mais que ensinar, mas também criar uma instância de pensar o mundo através das imagens, de deixar que essa juventude se permita uma nova organização do mundo”, explicou.

Para Ana Paula Nunes, professora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano,  a evolução do cinema-educação como elemento agregador de ensino tem se aprimorado mais a cada ano, e uma das consequências é também que mais jovens e crianças passaram a fazer seus filmes em processos colaborativos no ambiente da aula. Nunes lembrou que a prática ainda tem formado um batalhão de novos curadoras e curadoras, que são os professores e suas decisões de o que exibir aos alunos. “Eu chamo de curadorias educativas. O professor deve ter em mente que os filmes nunca estão sozinhos numa seleção. Um termina e começa outro, então os filmes falam em conjunto, eles se relacionam. A curadoria deve pensar essas combinações de forma a estimular uma conversa que possa convidar o espectador a refletir”.

Educar as crianças pelo viés do audiovisual é uma forma de educar seus olhares, processo incontornável especialmemte diante da crise pela qual passa o setor cultural no Brasil. O cineasta Orlando Senna, ex-secretário do Audiovisual, salientou durante a CineOP que “nos interessa agora, como trabalhadores do setor, o enfrentamento dessa guerra cultural do qual somos vítimas do atual governo. Atualmente somos cada vez mais atacados por forças fascistas que trabalham com guerras culturais. Precisamos entender que, mais do que a classe cinematográfica, não tem outra forma de enfrentar uma guerra cultural embarcada pelo governo, se não for por meio da participação de todos”.

Se a fala de Orlando Senna atinge a todos os integrantes da cadeia audiovisual, sua urgência é a de compreender que os eixos da nossa história, a atenção à educação e a necessidade da preservação – a trinca que a CineOP anualmente adota como parâmetros – devem se conjugar diante da obscuridade de um poder público alheio à cultura. O sentimento geral percebido na CineOP é o de preocupação, mas também de esperança pelo futuro em curto prazo (inclusive as possibilidades de encontro) e novas articulações em avançado andamento. O cinema brasileiro passou por crises terríveis e sobreviveu. Seguirá assim: vivo.

SOBRE A CINEOP

Pioneira desde sua criação (2006), a enfocar a preservação audiovisual, história, educação e a tratar o cinema como patrimônio, a CineOP– Mostra de Cinema de Ouro Preto chega a sua 16a edição, de 23 a 28 de junho de 2021, no formato online e reafirma seu propósito de ser um empreendimento cultural de reflexão e luta pela salvaguarda do rico e vasto patrimônio audiovisual brasileiro em diálogo com a educação e em intercâmbio com o mundo.

Estrutura sua programação em três temáticas: preservação, história e educação. Durante seis dias de evento, o público terá oportunidade de vivenciar um conteúdo inédito, descobrir novas tendências, assistir aos filmes, curtir lives musicais, trocar experiências com importantes nomes da cena cultural, do audiovisual, da preservação e da educação, participar do programa de formação que oferece oficinas, masterclasses internacionais e debates temáticos. Tudo de graça pelo site www.cineop.com.br.

PROGRAMAÇÃO GRATUITA PELO SITE WWW.CINEOP.COM.BR

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SERVIÇO

16a CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO

23 a 28 de junho de 2021

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio: Instituto Cultural Vale, Cedro Mineração, Cemig|Governo de Minas Gerais

Parceria Cultural: Sesc em Minas, Prefeitura de Ouro Preto, Casa da Mostra e Instituto Universo Cultural

Apoio: Universidade Federal de Ouro Preto, Parque Metalúrgico Augusto Barbosa, Rede Minas, Rádio Inconfidência, Canal Brasil e Café 3 Corações

Idealização e realização: Universo Produção

Secretaria Especial de Cultural / Ministério do Turismo / Governo Federal Pátria Amada Brasil