A memória, orgânica e em constante fluxo, não existe só para as grandes instituições de guarda. Em contraponto a institutos culturais, museus pomposos e controles rigorosos de acervos privados ou públicos, um grupo de profissionais da cultura que atua fora dos grandes centros do país – logo, afastados dos mais privilegiados na pirâmide social brasileira – vem desenvolvendo trabalhos fundamentais de preservação de todo tipo de material produzido em seus ambientes e vida e de trabalho. Alguns deles se reuniram na manhã de sábado (25/6), no Centro de Convenções de Ouro Preto, para a mesa “Direito à memória audiovisual: a resiliência periférica”.

Entre eles estava o cineasta e educador Lincoln Péricles (LKT), veterano de festivais da Universo Produção e com um trabalho de produção constante na região do Capão Redondo, em São Paulo. Ele relembrou o quanto o coletivo das comunidades é parte incontornável não só do cotidiano diário, mas da manutenção e propagação de memórias. Para exemplificar, Péricles exibiu o curta-metragem “Mutirão: O filme” (2022), no qual ele, junto com a sobrinha ainda criança, repassa fotografias da construção de moradias feita pela Associação Povo em Ação, no Capão.

“Eu quis organizar e preservar a memória da criação da minha quebrada, que é a Cohab Adventista, localizada no Capão Redondo, e como isso afetava o jeito nosso de fazer cinema e de existir ali naqueles espaços”, comentou ele. Para o realizador, viver e filmar no seu território são atividades diretamente conectadas e é preciso compreender e sempre relembrar de que forma aqueles espaços passaram a existir independente do poder público, quase sempre ausente das ações locais. Pegar a câmera e captar esses registros, para ele, é eternizar esse trabalho a partir de um ponto de vista interno e local, sem intermediários.

O museólogo João Pedro Rodrigues, responsável pelo Museu das Favelas (SP), também participou da mesa e disse que, na prática, não existem grandes diferenças de metodologia na organização de acervos da periferia em relação às instituições maiores. O que difere, sem dúvidas, é o acesso a recursos e a legitimação social. “O princípio museológico, patrimonial, é o mesmo. Mesmo dentro de casa, a gente sempre está fazendo escolhas do que guardar, do que descartar e como apresentar aquilo que decidimos ficar. Por que guardamos alguma coisa? E o que vamos fazer com aquilo? É para a memória? Para alguma utilidade?”, disse João Pedro. “No nosso caso, tem muitos casos em que a guarda é inicialmente para fins utilitários, pra um uso muito específico pra uma história. Por exemplo, o time de futebol de várzea, ele precisa guardar as fotos, os relatórios, os registros de 30, 40 anos, que é o que vai provar a existência desse time e ajudar a conseguir uma verba quando for no gabinete de um vereador. Mas tem também um sentido de guarda histórica, não só de utilitarismo”, citou João.

Ele ainda apontou o tratamento distinto do Estado brasileiro em relação aos abismos econômicos de quem trabalha com preservação. “Esse direito à memória que a gente está falando não nos é dado quando não temos estrutura (na periferia). Essa é a diferença quando a elite resolve guardar o que ela deseja: o Estado automaticamente vira uma estrutura para que aquilo seja guardado. Então quando falamos de preservação na periferia, o que se altera é a disputa pela guarda e pelo direito à memória que o Estado quer priorizar”.

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