Abrindo a programação dos debates da 17ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, o encontro “Preservar, transformar, persistir” discutiu a forte presença da produção audiovisual indígena nas últimas duas décadas e que está em foco no evento esse ano. “Eu já tinha experiência de ver filmes indígenas, mas de maneira esparsa. Para a curadoria, fiz um mergulho, uma imersão nessa produção”, contou Cleber Eduardo, curador da Temática Histórica na CineOP. “No começo do processo eu achava que sabia alguma coisa sobre esses filmes e, no mergulho, descobri o tamanho da minha ignorância. Hoje, apesar de conhecer um pouco mais, eu me sinto mais ignorante em relação a essa produção”.

Cleber se referia à sua experiência, como homem branco ocidental, de se deixar tomar pela visão de filmes tão distintos, variados e de abordagens profundas da vivência e sobrevivência indígena. Na programação em exibição na Mostra, foram definidos 35 títulos realizados por 17 povos. O curador disse que poderiam ter sido feitos diversos recortes a partir das dezenas de filmes a que ele assistiu, e chegou-se a uma possível. “O que acabou se impondo, na minha percepção, se fixou em três frentes principais: a política das imagens (filmes que tematizam seu próprio fazer); a disputa territorial, com a desapropriação e expropriação da terra pela luta e pelo luto; e a espiritualidade, a busca da não-imagem, a relação entre seres e plantas, espíritos e animais”, resumiu.

 A temporalidade foi uma questão importante em toda a conversa. No caso da curadoria, Cleber se deparou com a percepção de que a produção indígena, em quase toda a sua totalidade, parte de perdas do passado para enxergar alguma perspectiva possível. “Esse jogo temporal é um jogo do cinema, da imagem. O presente filmado pelos indígenas quase sempre já se refere a alguma coisa que foi transformada pela presença de não-indígenas e vem sempre com a consciência de haverá um futuro a partir das memórias ali filmadas”.

O cineasta xavante Divino Tresewahú comentou que a prática de produção audiovisual indígena se tornou uma ação concreta de luta de vários povos. “A sociedade brasileira sabe que existem os indígenas no Brasil, mas sabe pouco das culturas, das tradições, da luta e dos direitos”, afirmou. Daí ele acreditar que as imagens produzidas pelos indígenas devem ser tanto para a visibilidade quanto para a possibilidade de realizadores se expressarem a partir de suas próprias vivências.

Barrados pelam mídia tradicional, segundo Divino, os indígenas se utilizam das redes sociais e do cinema para transmitirem essas expressões. “Eu conquistei vários futuros desde quando comecei a trabalhar com a câmera. Eu precisava aprender a editar, a escrever roteiro, e me esforcei muito para conquistar isso”. O próximo desejo de Divino é criar um canal de TV indígena no Brasil, o que ele acredita que seria uma grande conquista para que os povos falem e noticiem suas histórias, questões, problemas e culturas.

Vincent Carelli, cineasta e um dos principais nomes do projeto Vídeo nas Aldeias, relembrou a época em que começou a ministrar oficinas de audiovisual em aldeias indígenas. “O Vídeo nas Aldeias começou com a possibilidade da produção da imagem, muito antes da questão do fazer cinema. Quando os indígenas descobriam essa tecnologia da produção de imagem, tinha-se uma catarse, uma euforia, um entusiasmo muito grande”, contou Carelli. “Imediatamente eles começavam a pensar em tudo que poderia ter sido feito no passado, com as memórias de seus ancestrais. E então passaram a buscar uma autoimagem, em busca da permanência dessa memória e da visibilidade nacional”.

Para Carelli, que há décadas se dedica a firmar parcerias com indígenas na produção audiovisual e tem realizado diversos filmes de impacto (como “Adeus, Capitão”, a ser exibido no encerramento da CineOP, no dia 27 de junho), a iniciativa imediata desse contato indígena com as câmeras é reconstruir suas próprias imagens e então produzir “revivências”, recuperar o que poderia ter se perdido até então. Isso se tornou ainda mais importante também nas redes sociais. “A grande mídia não noticia as causas indígenas, então eles passam a se utilizar desses outros meios para vencerem a invisibilidade”, exaltou Carelli.

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