PROFISSIONAIS DISCUTEM O CENÁRIO ATUAL E QUE CAMINHOS TRILHAR PARA A PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL

O título-pergunta “Preservação audiovisual: Que caminhos trilhar?” da Temática Preservação da 16a CineOP foi abordado no debate realizado na tarde deste domingo, dia 27 de junho. Participaram da discussão Aluf Alba Elias – Arquivo Nacional | RJ; Fernanda Coelho – conservadora audiovisual e museóloga | RJ, Hernani Heffner – gerente da Cinemateca do MAM | RJ e Marcos Sabóia – Cinemateca de Curitiba | PR. A mediação foi de Lila Foster –pesquisadora, curadora e diretora de relações institucionais da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual | DF.

Aluf Alba Elias – Arquivo Nacional | RJ iniciou o encontro explicando como a instituição tem operado, quais as suas estratégias e desafios. “Somos o maior arquivo da América Latina, dentro da nossa estrutura temos o Sistema Nacional de Arquivos e o digital é o assunto e a preocupação do momento”. Segundo Aluf, o ano de 1982 marca a incursão do Arquivo Nacional na preservação audiovisual, com a inauguração da seção de filmes, associada à transferência do acervo da Agência Nacional para a instituição. “Num primeiro momento, os três servidores responsáveis pelo setor precisaram investigar como trabalhar e processar esse material. Em seguida, ainda na década de 80, outras coleções chegaram. Com a promulgação da Lei 8159, passou a haver uma preocupação com os acervos privados e começamos a receber doações, como o Acervo César Nunes, uma coleção de cinejornais muito complexa e diversificada”.

Outro marco da história da preservação audiovisual para o Arquivo Nacional foi 2002, quando a instituição alcançou um novo estágio de profissionalização, com a chegada de parte do Acervo do MAM/RJ. “Vários profissionais que hoje são referência começaram sua carreira atuando com esse material. É importante destacar que a Cinemateca Brasileira foi muito importante para a capacitação de mão de obra especializada  do Arquivo Nacional. E foi um momento em que a instituição entendeu melhor seu papel de disponibilizar esse material para o público. Hoje em dia, atuamos junto ao Fiaf e entidades da América Latina, e buscamos ser um elo entre a preservação audiovisual e instituições do segmento de todo o mundo”.

Para Aluf, os principais desafios do Arquivo Nacional são: organizar, indexar e preservar esse material, que se deteriora muito rapidamente. “É uma preocupação muito significativa, que vai para além das películas, de também preservar o material que está em fita magnética. O Arquivo Nacional tem a custódia do acervo da TV Tupi e não temos como acessar esse conteúdo, por falta de equipamento, que foi descontinuado. Seja por sua complexidade, de descrição e de manutenção, manter um acervo desse porte é um desafio muito complicado e o alto preço inviabiliza ações mais efetivas”.

Conforme explicou Aluf Elias, o Arquivo Nacional está investindo no Diretório Brasil de Arquivos como uma opção de plataforma para tornar público seu acervo e de outras instituições. Ela ressaltou ainda que é necessário prever a preservação digital ao longo do tempo. “Atuamos ao longo de dez anos para criar um diretório de preservação digital confiável. Isso tem que ser um exercício contínuo e um elo entre as instituições”.

A representante do Arquivo Nacional evidenciou também a necessidade da inclusão do terceiro setor da discussão sobre a preservação audiovisual. “Os serviços públicos digitais são imperativos e precisamos de investimentos e recursos para tal”. Ela exemplificou com a iniciativa do Lab digital, orçado em 13 milhões. “Estamos buscando conseguir recursos para concretizar esse projeto”.

Fernanda Coelho – conservadora audiovisual e museóloga | RJ fez uma fala muito pessoal e contundente sobre seu campo de atuação. “Como é difícil nesse momento falar do futuro da preservação audiovisual, pois estamos vivendo um momento muito desalentador. Mas nunca foi fácil, não escolhemos uma profissão fácil. Trabalhamos com materiais muito frágeis e vivemos num país que não sabe a importância da sua própria história. Escolhemos um caminho difícil, mas esse sonho improvável existe e acontece todos os dias nas instituições de guarda das diversas partes do país. Acredito que conseguimos enxergar no audiovisual uma possibilidade de reflexão sobre a nossa sociedade, que pode nos ajudar a construir um futuro melhor”.

Ela salientou a importância da formação de novos profissionais para o setor. “Quero muito passar para as pessoas esse conhecimento. O mercado é pequeno, restrito e ingrato e não reconhece o esforço e o trabalho das pessoas. Mas precisamos ter uma geração para suceder nosso trabalho e amadurecer o setor”. Fernanda apontou ainda a relevância de fazer um movimento de aproximação com as instituições que preservam o patrimônio cultural como um todo. “Precisamos nos aproximar da sociologia, da museologia, entre outras áreas, pois o patrimônio audiovisual é também um patrimônio cultural”.

Para Fernanda, deve ser feita uma mudança na Lei de Gestão das OS que atuam no setor de preservação. “Os contratos têm duração de cinco anos e isso é incompatível com as necessidades do setor. Precisamos encontrar um meio termo para que as atividades-fim tenham funcionários estáveis para momentos de crise, para garantir a sobrevivência da instituição e do material preservado”. Apesar do atual cenário desanimador, ela acredita que é fundamental não esmorecer. “Não podemos nos esquecer de todas as vitórias e conquistas que tivemos até hoje, de tudo o que já criamos. Teremos que reconstruir muitas coisas, mas essa crise vai passar”.

Hernani Heffner – gerente da Cinemateca do MAM | RJ começou sua fala de forma incisiva: “A preservação audiovisual e o Brasil precisam dar um reboot. Vivemos esse momento trágico da história brasileira e ficamos com um sentimento ruim de impotência e de interrogação sobre o futuro. É uma necessidade parar e recomeçar de uma outra maneira, para tentarmos trilhar um caminho melhor e entendermos porque chegamos onde chegamos”.

Para Heffner, o caminho a frente precisa começar com a fundamental descentralização. “Sem a descentralização, não vamos conseguir nada e a situação pode piorar. Ou atuamos em rede ou não vamos chegar a lugar algum. É uma questão de política pública. Sem um entendimento maior entre todos os agentes envolvidos, não vamos avançar. Poderemos, inclusive, chegar a ter um verdadeiro apagão na memória audiovisual do país. Precisamos desenvolver um caminho positivo e propositivo a frente para tirar a preservação dessa eterna crise que se arrasta há décadas”.

De acordo com Hernani, entre os desafios conceituais da atualidade está a transformação do mundo, e em especial, do audiovisual, causada pelos serviços de streaming e seu crescimento acelerado resultante da pandemia. “A Cinemateca do MAM se aventurou nesse lugar do streaming e os números são avassaladores. Mas refletimos que a função de um arquivo de filmes não é só dar acesso, é dar experiências e informações. O risco desta crise atual é que ela provoque o encerramento dos circuitos tradicionais de exibição, das salas de exibição. Precisamos manter o esforço de manter a experiência e estes materiais para o futuro”. Atento em formar um compromisso real com as experiências contemporâneas, MAM/RJ vai passar a incorporar jogos eletrônicos, esclareceu Heffner. “É um novo campo que se abre e precisa ser preservado”.

Diretor da Cinemateca de Curitiba | PR, Marcos Sabóia recordou a importância de um estágio que realizou na Cinemateca Brasileira. “Assumi a Cinemateca de Curitiba nos anos 2000. Naquela época, nossa listagem dos filmes estava em papel. O estágio na Cinemateca Brasileira abriu a minha cabeça. A partir daí, começamos a implantação de uma catalogação digital e da melhoria dos critérios de armazenamento. Afirmo que a iniciativa da Cinemateca Brasileira foi fundamental para a melhoria das condições do nosso acervo. Uma formação de duas semanas como essa é capaz de mudar o destino de um arquivo”.

Sabóia informou que a Cinemateca de Curitiba não é mais responsável pela programação dos cinemas de rua da cidade, que deixaram de existir. “Mas isso vai permitir que a entidade se recoloque, assuma sua função na cadeia de produção da cidade, por meio de cursos e acesso ao acervo”. Para o gestor, a questão das parcerias entre acervos é muito importante e abre inúmeras possibilidades. “Quero muito saber como trabalhar em parceria com os acervos irmãos. Conseguimos comprar um scanner e aceitamos sugestões sobre como colocar esse scanner a disposição dos acervos, profissionais e pesquisadores, através de editais, e de parcerias com a ABPA”.

Além dos desafios já conhecidos de dificuldades de catalogação e revisão do material, Sabóia aponta a falta de mão de obra especializada como um dos principais problemas. “Quando me aposentar, não sei se teremos alguém que vai continuar o trabalho e conhecer a história da Cinemateca de Curitiba. Além disso, a instituição precisa ser repensada para reunir as novas gerações de público e de realizadores”.

Lançamento da “Declaração Digital”                 

Durante o debate também foi realizado pelo Arquivo Nacional, especialmente na 16a CineOP, o lançamento da publicação “Declaração Digital | Recomendações Para Digitalização, Restauração, Preservação Digital e Acesso”. De acordo com Aluf Alba Elias, trata-se “da primeira parte de uma publicação técnica e é fruto de um esforço em rede com os nossos colegas da ABPA”. A “Declaração Digital” estará disponível a partir de 28 de junho no site  https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br.

A “Declaração Digital | Recomendações Para Digitalização, Restauração, Preservação Digital e Acesso” e de autoria da International Federation of Film Archives (Fiaf) e é um lançamento da editora do Arquivo Nacional. A tradução é de Mariana Monteiro da Silveira.

 A publicação deste documento de 14 páginas,  disponível em formato digital (.pdf), é fruto da participação do Arquivo Nacional como associado da International Federation of Film Archives (Fiaf), principal entidade internacional dedicada à preservação e ao acesso ao patrimônio audiovisual. A Fiaf possui comissões para tratar de assuntos relacionados ao campo do audiovisual, como a Comissão Técnica, a Comissão de Catalogação e Documentação e a Comissão de Programação e Acesso às Coleções. Essas comissões especializadas publicam regularmente, nas línguas oficiais da federação (inglês, francês e espanhol), orientações e referências para cinematecas e arquivos audiovisuais. Como forma de democratizar o acesso a essas fontes, o Arquivo Nacional realizou a tradução para o português da parte I da Declaração digital, elaborada pela Comissão Técnica da Fiaf. Acredita-se que essa tradução possa contribuir para o intercâmbio de conhecimento entre as diferentes instituições de preservação e acesso ao patrimônio audiovisual do Brasil e do mundo.

SOBRE A CINEOP

Pioneira desde sua criação (2006), a enfocar a preservação audiovisual, história, educação e a tratar o cinema como patrimônio, a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto chega a sua 16ª edição, de 23 a 28 de junho de 2021, no formato online e reafirma seu propósito de ser um empreendimento cultural de reflexão e luta pela salvaguarda do rico e vasto patrimônio audiovisual brasileiro em diálogo com a educação e em intercâmbio com o mundo.

Estrutura sua programação em três temáticas: preservação, história e educação. Durante seis dias de evento, o público terá oportunidade de vivenciar um conteúdo inédito, descobrir novas tendências, assistir aos filmes, curtir lives musicais, trocar experiências com importantes nomes da cena cultural, do audiovisual, da preservação e da educação, participar do programa de formação que oferece oficinas, masterclasses internacionais e debates temáticos. Tudo de graça pelo site www.cineop.com.br.

Acompanhe a 16a CineOP e o programa Cinema Sem Fronteiras 2021.

Participe da Campanha #EufaçoaMostra

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SERVIÇO

16a CINEOP – MOSTRA DE CINEMA DE OURO PRETO

23 a 28 de junho de 2021

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio: Instituto Cultural Vale, Cedro Mineração, Cemig|Governo de Minas Gerais

Parceria Cultural: Sesc em Minas, Prefeitura de Ouro Preto, Casa da Mostra e Instituto Universo Cultural

Apoio: Universidade Federal de Ouro Preto, Parque Metalúrgico Augusto Barbosa, Rede Minas, Rádio Inconfidência, Canal Brasil e Café 3 Corações

Idealização e realização: Universo Produção

Secretaria Especial de Cultural / Ministério do Turismo / Governo Federal Pátria Amada Brasil

PROGRAMAÇÃO GRATUITA PELO SITE WWW.CINEOP.COM.BR

  • ABERTURA OFICIAL                                               
                                                                                     
  • EXIBIÇÃO DE FILMES – LONGAS, MÉDIAS E CURTAS
                                                                                     
  • PRÉ-ESTREIAS E MOSTRAS TEMÁTICAS
                                                                                     
  • MOSTRINHA
                                                                                     
  • MOSTRA VALORES
                                                                                     
  • SESSÕES CINE-ESCOLA
                                                                                     
  • ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS E ACERVOS AUDIOVISUAIS BRASILEIROS
                                                                                     
  • ENCONTRO DA EDUCAÇÃO: XIII FÓRUM DA REDE KINO
                                                                                     
  • DEBATES, DIÁLOGOS E RODAS DE CONVERSA
                                                                                     
  • OFICINAS
                                                                                     
  • MASTERCLASSES INTERNACIONAIS
                                                                                     
  • EXPOSIÇÃO VIRTUAL “MEU CARTÃO POSTAL DE OURO PRETO”                                                                   
                                                                                     
  • PERFORMANCE AUDIOVISUAL
                                                                                     
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