REPRESENTAÇÃO DOS POVOS ORIGINÁRIOS E O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL SÃO TEMAS QUE POUCO AVANÇARAM NO CINEMA BRASILEIRO

Nos anos 1990, nenhum diretor ou diretora negra lançou um filme nas salas de cinema no Brasil. O Brasil é o único lugar no qual os povos indígenas podem ser encontrados como eram na sua origem. Esses foram alguns dos dados que os diretores Joel Zito Araújo (A negação do brasil) e Sylvio Back (Yndio do Brasil) trouxeram para a Roda de Conversa Arquivos, Mito, Realidade. A conversa tratou de um Brasil que pouco evoluiu nas questões raciais e que ainda menospreza os povos indígenas. O fio se deu a partir dos filmes A negação do brasil https://cineop.com.br/filme/a-negacao-do-brasil/ e Yndio do Brasil https://cineop.com.br/filme/yndio-do-brasil/, filmes que estão disponíveis na 16ª CineOP até segunda-feira, dia 28 de junho.

Na década em que nenhum diretor negro lançou um filme nas salas de cinema do Brasil, Joel Zito Araújo destaca que a ideia de democracia racial predominava na cabeça de todos. “O meu filme fala desse problema de representatividade. O cinema brasileiro em geral gostava do tema da luta pela liberdade do negro na escravidão ou no contexto vivido por ele no período seguinte a ela. Eu não acreditava nisso porque eu vinha de um contexto que criticava fortemente essa ideia. As narrativas negras não eram representadas”, relembra o realizador. Além disso, durante muitos anos ele era tido como um militante e não como cineasta. Dessa forma, A negação do brasil nasceu de um processo de pesquisa profundo sobre as influências das novelas, e a representação contida nelas, nos processos de identidade étnica dos afro-brasileiros.

Yndio do Brasil surgiu de uma forma não premeditada. Durante a exibição de um outro filme, Sylvio Back foi abordado por um jornalista argentino que sugeriu que ele fizesse uma produção sobre o índio brasileiro. Assim, também com um trabalho de pesquisa complexo, nasceu uma obra que é uma colagem de vários filmes nacionais e estrangeiros de como os povos indígenas foram representados no cinema. “Acabei fazendo um ato falado e filmado desde que o índio foi filmado pela primeira vez, em 1912. Fui juntando as coisas, as músicas, as situações e, quando vi, eu estava com o imaginário brasileiro nos filmes”, destaca.

Outro ponto de destaque que Sylvio Back trouxe para a conversa foi sobre como povos indígenas, negros e mulheres são “esquecidos” na sociedade, já que, mesmo estando em grandes números, continuam invisibilizados e com representatividade mínima.

Trazendo para a atualidade, pouca coisa mudou depois de mais de 20 anos do lançamento de ambos os filmes, pois eles discutem muitas questões que ainda não foram resolvidas. Mas alguns aspectos estão diferentes. “Temos que observar que o negro continua sendo uma minoria”, destaca Joel Zito Araújo. “É claro que a representação mudou, tem elencos com mais negros. Mas a grande diferença agora é que se consolidou uma ideia diferente que perdurava até meados dos anos 1990, que o negro, por ser negro, era feio. O cinema e as mídias não trabalham mais nesse imaginário social”, acrescenta. Dessa forma, a demonstração da beleza negra é parte de uma nova representação. Entretanto, ainda assim existe a representação do negro como “o outro”.

A questão dos povos indígenas também não fica para trás nessa perspectiva. “Até o século XIX, o índio estava sob custódia da igreja, depois houve uma espécie de militarização. Agora eles sabem muito bem o que querem e o que precisam, que é se rebelarem para não ser desqualificados”, conta Sylvio Back. Sendo assim, a representação e internalização de narrativas de pessoas negras e indígenas precisa ocorrer para que seja dado mais um passo no processo de aumento da diversidade e representação. “Acho que é a nova etapa do Brasil que precisamos construir. O Brasil é um país da diversidade. Só vamos ganhar quando compreendermos que somos um país da diversidade. Vamos ter mais chance no mundo quando compreendemos isso”, conclui Joel Zito Araújo.

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Os dois filmes tratam de figuras historicamente oprimidas no Brasil

A negação do Brasil Joel Zito

Um amplo trabalho de pesquisa. Em qual contexto profissional e pessoal ele surgiu?

Nos anos 1990 nenhum diretor negro lançou um filme nas salas de cinema. Nenhum diretor ou diretora. Nenhum que teve a chance de fazer um filme e lançar na sala de cinema.

O filme fala desse problema de representatividade.

A ideia de democracia racial predominava na cabeça de todos.

Então o meu filme nasce desse contexto, veio depois do curta Retrato em preto e branco

Estava fazendo um doutorado e o reitor da USP convidou para fazer uma carta e apoiou o projeto.

É um filme sobre os negros nas telenovelas

O que era marcado nos anos 90 em termos da presença negra no brasil, o cinema brasileiro de forma geral gostava do tema da luta da liberdade do negro na escravidão. Mas o cinema contemporâneo ainda flertava muito com a questão da democracia racial.

Eu não acreditava nisso, vinha de um contexto que criticava isso fortemente. As narrativas negras não eram representadas. Durante muito tempo fui declarado como militante e não como cineasta.

Tinha um desejo das pessoas de contarem histórias de pessoas negras durante ou logo após a escravidão.

Yndio do Brasil – Sylvio Back

A ideia surgiu de uma forma não premeditada.

Encontrou um jornalista durante a exibição do filme anterior que deu a ideia de fazer o filme sobre os indígenas brasileiros. Sobre a representação dessas pessoas no cinema.

Então eu resolvi misturar tudo. Acabei fazendo um ato falado e filmado desde quando ele foi filmado pela primeira vez em 1912, imagens conservadas pelo Roquete Pinto.

Fui juntando as coisas, as músicas, as situações, a um redescobrimento do negro, do índio e da mulher.

Quando eu vi eu estava com o imaginário brasileiro nos filmes.

Foi um dos filmes que me levou para muitos lugares. Vários festivais. Porque o índio brasileiro é o único que ainda pode ser encontrado como colombo encontrou. É um filme sobre os fundadores.

Joel Zito

Se houvesse um filme 2, o que alterou ou não nesses 20 anos. se vc fosse fazer hoje.

Lancei simultaneamente o filme e o livre pela editora Senac

às vezes fico pensando na história do livro e fico impressionado e triste com atualidade do meu filme, porque discute coisas que ainda não foram resolvidas.

É claro que a representação mudou, tem um elenco maior. Mas a grande diferença é que se consolidou uma ideia diferente que perdurava até meados dos anos 90, que o negro, por ser negro, era feio. O cinema essas mídias não trabalham mais nesse imaginário social. Então a demonstração da beleza negra, tido como um ser bonito, é parte de uma nova forma de representação.

Lá nos primordios eu dizia que a beleza não é uma questão de raça. É uma grande bobagem. Mas hoje, felizmente, essa ideia foi quebrada por pessoas fundamentais que trabalham com as mídias. Não sei se foi quebrado na população.

Pensando no que fazer hoje. Temos que observar que o negro continua sendo uma minoria. Representado pelo cinema, pela publicidade etc, como minoria. Se comparar um seriado americano com um brasileiro as pessoas vão dizer que tem mais negro nos EUA do que no Brasil. Mas lá tem 13% e aqui mais de 50%.

Nós ainda temos a representação do afrodescendente como o outro, que no fundo significa a representaçãodo indesejado.

Se eu fosse fazer o segundo filme eu acentuaria essa compreensão que precisamos ter. Que acho que é a nova etapa do Brasil que precisamos construir. O Brasil é um país da diversidade. Só vamos ganhar quando compreendermos que somos um país da diversidade. Vamos ter mais chance no mundo quando compreendemos isso.

Sylvio Back

Ideia de mito no filme

Quando resolvi trabalhar com o índio a imagem dele no cinema eu já vinha de uma década pesquisando as missões da igreja no Uruguai. É uma coisa que não premeditei, as imagens acabam me engolindo. Até o século 19 o índio estava sob custódia da igreja, depois houve uma militarização. Agora eles sabem muito bem o que querem e o que precisam. Precisam se rebelar se não serão desqualificados.

No filme eu tirei o narrador, e como tinham várias imagens tanto do cinema mudo quanto falado eu decidi escrever alguns poemas. Escrevi sete poemas sobre o índio brasileiro. Eles foram editados em ouro preto.

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