TELEVISÃO: O QUE FOI, O QUE É E O QUE AINDA PODE SER.

Se a televisão e o cinema, em muitos países, experimentaram uma relação de disputa de mercado e tensão no que diz respeito ao espaço simbólico na sociedade, também aconteceram alguns encontros felizes entre a arte e o meio. Cineastas como Jean-Luc Godard, Rainer Werner Fassbinder, Alexander Kluge, Roberto Rossellini e até mesmo Alfred Hitchcock tiveram na televisão um interessante, e em alguns casos, poderoso, campo de experimentações.  Essas exceções revelaram que a televisão como instrumento de difusão de ideias (e estéticas) mais substantivas tinha uma potência muito pouco explorada.

O cinema brasileiro teve dificuldades de existir na televisão. Filmes de longa e curta metragens eram – e são ainda – pouco exibidos nas grades dos canais das TVs aberta e fechada, contou com poucos programas de financiamento a filmes de ficção e documentário de curtas, médias e longas-metragens. Se a TV nos últimos 50 ou 60 anos é o principal meio de comunicação e entretenimento de massa, o cinema brasileiro é pouco conhecido do espectador brasileiro. Já o cinema estrangeiro e na telenovela constituíram o imaginário de várias gerações que tiveram na TV a sua principal referência cultural, assim como os telejornais foram os principais mediadores das narrativas históricas, política e social do passado e do presente.

Isso que nos acostumamos a chamar de televisão, isto é, a transmissão para aparelhos domésticos de imagens por meio de canais de concessão pública, faz setenta anos no Brasil. Sua efeméride inicial foi uma transmissão em tempo real. De lá pra cá houve o advento do videotape que permitiu a gravação de programas. Foram então criados modelos de programação entre o telejornal, os programas de auditório (herdados do rádio), as faixas de esporte (em especial o futebol), a dramaturgia (novelas, teleteatro, as minisséries) e a veiculação de produções cinematográficas importadas, majoritariamente dos Estados Unidos, entremeados por peças publicitárias que sustentam os canais. Hoje chegamos às inovações interativas, à televisão digital e ao streaming.

O que fica claro nessa trajetória que vai da transmissão ao vivo à imagem digital, é que “televisão” não é somente o conjunto de canais transmissores de reprodução de conteúdo no aparelho televisor doméstico, a TV na verdade se tornou um campo que absorve quase toda a produção audiovisual. A multiplicação de telas realizou uma parcial integração entre mídias e criou novas disputas entre o antigo formato televisivo com canais de TV aberta e TV paga e streamings de grandes corporações internacionais, em paralelo à comunicação independente – de jornalismo, peças de caráter educativo, de cultura pop, de movimentos sociais, – feita por canais em plataformas como Youtube.

Se o projeto da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual) que visava fiscalizar e regular as atividades cinematográficas e audiovisuais realizadas por serviços de telecomunicações, radiofusão e comunicação eletrônica de massa (além da telefonia celular e da internet que transmitam conteúdos audiovisuais) não saiu do papel, é porque justamente mexia nos monopólios das grandes empresas e na produção cultural nacional e regional. Em outras palavras: democratização dos meios e fortalecimento do acesso à informação. Oportunidade perdida que nos convida a repensar, mais uma vez, o papel de toda a cadeia audiovisual na produção de cidadania e na consolidação de um imaginário de diversidade.

Por mais que vejamos a nossa história em que a hegemonia de narrativas se deu por meio da cultura televisiva, é importante notar várias experiências inventivas nessa trajetória, sobretudo a partir do afrouxamento parcial da ditadura militar no período que vai do início do processo de abertura no fim dos anos 1970, até tempos mais recentes em que políticas públicas conseguiram criar algumas fissuras e propor uma diversidade maior na produção audiovisual.

Disputar o território do audiovisual que tem na televisão seu modelo ainda mais forte e hegemônico é um dos imperativos na conquista de uma democracia futura. Essa disputa é a da conquista do direito à informação, da expressão do imaginário e da representatividade comunitária e regional, é a possibilidade de modernizaçãpo dos intrumentos propícios à educação (objetivo primordial de fortes TVs públicas mundo afora), à abertura às novas experimentações com a tecnologia audiovisual e à difusão livre e diversa de nossos bens culturais tendo como exemplo emblemático (mas não o único), o cinema. Ainda hoje, com a carência de salas de cinema e pouca oferta audiovisual e a falta de acesso ao ambiente digital nos recantos mais longínquos do Brasil, a difusão televisiva ainda teria (tem?) um inestimável serviço a prestar. Não é só uma questão de mercado mas, sobretudo, de cidadania.

Por isso a Mostra Histórica da 15ª CineOP pretende voltar sua atenção à produções televisivas de exceção e que nos deram a vislumbrar uma outra possibilidade de TV. Obras que levaram o cinema e a política à televisão forçando a (auto) censura dos canais de televisão, outros trabalhos que levaram questões avançadas da tecnologia e da arte à TV aberta, que foram canal de imagem e voz da sociedade civil organizada (em especial, movimentos populares), que se liberaram de “formatos” consolidados e se lançaram a experimentar novas formas narrativas e visuais em intervenções impactantes e reflexões agudas sobre a própria natureza da televisão, seus limites e suas possibilidades. Parte dessas inovações, dos pontos de vista estético, artístico e cinematográfico, foi incorporada (e muitas vezes diluída) pelas grandes redes de TV posteriormente.

Hoje , pensando a televisão mais como um instrumento do que como uma mídia específica, examinemos o que pôde a televisão no passado para imaginarmos o que ela ainda pode em um momento que a variedade de telas e suportes tecnológicos descortinam um horizonte novo e ainda inexplorado.

Francis Vogner dos Reis
Curador – Temática Histórica

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

DESTAQUE | TEMÁTICA HISTÓRICA

O destaque da temática histórica da 15ª CineOP vai para o trabalho desenvolvido pela Produtora TVDO nos anos 1980. Também chamada de TVTudo, foi vanguardista e desafiou o padrão predominante até então pela TV comercial aberta. As produções eram experimentais, subversivas e combinavam artes visuais e linguagem televisiva.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

DEBATES | TEMÁTICA HISTÓRICA

03/09 | quinta | 20h

DEBATE INAUGURAL – CINEMA DE TODAS AS TELAS

04/09 | sexta | 12h

TV, PÓS-TV E OUTRAS TELAS

05/09 | sábado | 12h

O PERCURSO DA TVDO

06/09 | domingo | 12h

CINEMA, TELEVISÃO E COMUNICAÇÃO POPULAR

06/09 | domingo | 18h

REVISÃO, RECONSTITUIÇÃO OU REAPROPRIAÇÃO DE FILMES INTERROMPIDOS OU PERDIDOS

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

FILMES | MOSTRA HISTÓRICA