PATRIMÔNIO AUDIOVISUAL: ACERVOS EM RISCO E NOVAS FORMAS DE DIFUSÃO

A produção televisiva constitui-se como um elemento central na formação cultural da sociedade brasileira, em particular aquela das grandes redes de televisão abertas. As produções de teledramaturgia, de entretenimento e de jornalismo são os principais produtos audiovisuais consumidos no Brasil e integram um patrimônio essencial. Ainda que hegemônicas, estas produções permitiram e se beneficiaram de diversas zonas de experimentação ao longo do tempo. A efeméride de setenta anos da televisão nos permite celebrar esse múltiplo e rico conteúdo, e as iniciativas de centros de documentação de uma parcela dos principais canais e redes televisivas. Por outro lado, é inevitável também reconhecer o malogro na preservação do patrimônio televisivo: a história da televisão brasileira é também de acervos desmantelados, dispersos, leiloados, escamoteados. Um exemplo marcante é a falência da TV Manchete em 1999, que imprimiu negligência e paralisia ao seu acervo, atualmente inacessível. A TV Tupi, a primeira emissora de televisão do país, fundada em 1950 e em atividade até 1980, tem parte de seu acervo sob a guarda da Cinemateca Brasileira, que enfrenta possivelmente a pior crise desde sua criação.

Ao longo das últimas sete décadas, o desenvolvimento tecnológico e a adoção de novos formatos e fluxos para gravação, reprodução e arquivamento tem como consequência um colossal desafio para a gestão e preservação dos conteúdos. O patrimônio televisivo é constituído por películas 16mm, 35mm, fitas magnéticas diversas e, por fim, o digital, distinto em suas finalidades e formatos – como humor, teledramaturgia, jornalismo, entretenimento infantil –, com produções acessórias e complementares, como campanhas publicitárias e versões brasileiras de obras estrangeiras. Ainda, este patrimônio abarca também documentos diversos, cenários, figurinos relacionados a tais programas, assim como as tecnologias para gravação, edição e reprodução. No advento do digital, o volume de imagens gravadas ocasiona desafios ainda maiores para sua decupagem, seleção, catalogação, indexação e gerenciamento.

O advento do digital também propiciou uma mudança radical: no contexto da pós-televisão, fica evidente o potencial do audiovisual como ferramenta criativa, instrutiva e cívica. Aulas, seminários e tutoriais em plataformas populares democratizam o acesso à informação e estimulam o movimento faça-você-mesmo, potencializando o alcance de narrativas pessoais e comunitárias ou, ainda, como ferramenta de defesa na violação de direitos individuais. A expansão de possibilidades na criação e difusão compreende também a volatilidade e efemeridade inerente ao digital. Esta significativa produção não integra o escopo de nenhuma instituição de guarda.

A pandemia da Covid-19 modificou drasticamente o cenário de produção, preservação e acesso ao audiovisual: acarretou uma descontinuidade temporária de novas produções e pesquisas, a suspensão de atividades presenciais das instituições de guarda e o fechamento de centros culturais e salas comerciais de cinema. Os meios digitais online se impuseram de forma drástica e decisiva como forma de atender à explosiva demanda, ocasionada pela quarentena e distanciamento social. No que toca à difusão, nota-se uma presença diminuta da produção audiovisual brasileira nos catálogos de plataformas comerciais de conteúdo sob demanda – majoritariamente contemporânea. Esta dinâmica reforça a obliteração de obras do passado no repertório cultural brasileiro. Estas produções são encontradas, ainda que timidamente, em relevantes plataformas de conteúdo lançadas por arquivos e cinematecas ou, ainda, em plataformas de amplo alcance, mas sem a devida liberação de direitos. A crise da pandemia da Covid-19 tornou ainda mais visível a fragilidade do patrimônio audiovisual brasileiro, tanto para sua difusão quanto para preservação. Neste contexto é premente repensar as formas e a qualidade do acesso ao patrimônio, bem como o papel das instituições de guarda e de políticas públicas que garantam esse direito fundamental à memória.

Este é um desafio que não se restringe ao Brasil. Por isso a importância de conhecer e discutir o que vem sendo feito em outros países, com contextos e realidades distintas. Para tal, teremos a presença de representante da FIAF, federação que contempla mais de 170 instituições ao redor do mundo e que desempenha um papel central na articulação de uma comunidade dedicada à preservação e ao acesso do patrimônio audiovisual. Também estará presente a Cinemateca Portuguesa, instituição internacionalmente reconhecida pela excelência de sua programação, de seu arquivo e laboratório fotoquímico e que vem aumentando sua presença nos meios digitais. Por fim, também teremos a presença do Museo del Cine Pablo Ducrós Hicken, instituição de referência na América Latina, que está em promissora expansão de suas instalações.

No Brasil, o Ministério da Cultura foi dissolvido em 2019, em um dos primeiros atos do atual governo federal. Cinco Secretários Especiais de Cultura já passaram pelo cargo em menos de dois anos. Pessoas sem a qualificação necessária passaram a ocupar cargos de chefia em diversas instituições. Editais, programas, fundos de financiamento e contratos foram suspensos. Estes são alguns aspectos que ilustram o poder de destruição da administração vigente. O resultado tem sido catastrófico para o patrimônio cultural como um todo. O incêndio do Museu Nacional em 2018 foi uma tragédia sem precedentes no país. A destruição causada não configurou um alerta para uma mudança de postura, frente à conservação e proteção dos acervos. No campo da preservação audiovisual, a crise da Cinemateca Brasileira, que será debatida nesta edição, ganha ares dramáticos quando o governo federal não faz repasses, seus funcionários ficam sem salário, ameaça de corte do fornecimento de energia e empresas de manutenção suspendem o serviço por falta de pagamento. Como resultado, seus expressivos acervos audiovisual e documental estão ameaçados, bem como seu complexo parque tecnológico e os saberes técnicos que permeiam estes.

Seguimos testemunhando cenários de criminoso descaso com o patrimônio cultural brasileiro. Este quadro torna ainda mais premente a construção de políticas de preservação capazes de sobreviver às mudanças de governos, sem depender do humor dos gestores. O sucesso no estabelecimento de políticas específicas e mudanças significativas na valorização do patrimônio audiovisual e das instituições também depende de uma transformação da dinâmica entre os distintos agentes que atuam na cadeia produtiva e no ensino do audiovisual. O que faremos para uma real proteção do patrimônio audiovisual do passado e do que hoje ocupa as múltiplas telas do mundo digital? Qual o futuro dos próximos setenta anos da televisão brasileira?

Ines Aisengart Menezes e José Quental
Curadores – Temática Preservação

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DEBATES | TEMÁTICA PRESERVAÇÃO

01/09 | terça | 18h

1ª REUNIÃO DE TRABALHO DO ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS

03/09 | quinta | 20h

DEBATE INAUGURAL – CINEMA DE TODAS AS TELAS

04/09 | sexta | 16h

A PRESERVAÇÃO NA TELEVISÃO BRASILEIRA: DESAFIOS E ACESSO

05/09 | sábado | 11h

FIAF: COMUNIDADE E ESTRATÉGIAS

05/09 | sábado | 14h

2ª REUNIÃO DE TRABALHO DO ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS (RESERVADO AOS MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL)

06/09 | domingo | 14h

3ª REUNIÃO DE TRABALHO DO ENCONTRO NACIONAL DE ARQUIVOS

06/09 | domingo | 16h

A ATUAÇÃO DOS ARQUIVOS BRASILEIROS NO MUNDO DIGITAL

07/09 | segunda | 12h

CASE DE RESTAURO: PIXOTE, A LEI DO MAIS FRACO

07/09 | segunda | 16h

INSTITUIÇÕES DE PATRIMÔNIO EM RISCO: CASO CINEMATECA BRASILEIRA

07/09 | segunda | 18h

A PRESERVAÇÃO SOB A ÓTICA DA FOTOGRAFIA NO CINEMA

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MASTERCLASSES | TEMÁTICA PRESERVAÇÃO

05/09 | sábado | 16h

CINEMATECA PORTUGUESA DO FOTOQUÍMICO AO DIGITAL

Tiago Baptista

07/09 | segunda | 14h

A EXPANSÃO DO MUSEO DEL CINE PABLO DUCROS HICKEN

Paula Félix Didier

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FILMES | MOSTRA PRESERVAÇÃO