PRIMEIRA VEZ
O conceito Primeira vez, que orienta a curadoria da temática Educação na Mostra de Cinema de Ouro Preto, inspira-se no filme cubano Por primera vez (1967), de Octavio Cortázar, exibido na 20ª CineOP, no qual estudantes pela manhã e camponeses pela noite assistem ao cinema pela primeira vez. O curta registra o momento inaugural do encontro entre espectadores e imagens em movimento — um instante de surpresa, riso, estranhamento e descoberta que revela a potência sensível e coletiva do cinema. Essa “primeira vez” não é apenas um fato cronológico; é uma experiência de encantamento que inaugura novas formas de ver, sentir e compreender o mundo.
Pensar a partir dessa ideia implica reconhecer que o cinema, quando chega à escola, carrega sempre a possibilidade de um acontecimento inaugural. A primeira vez pode ser o primeiro contato de alguém com a linguagem cinematográfica, o primeiro gesto de criação coletiva entre estudantes ou o primeiro encontro entre uma comunidade escolar e um filme que a transforma. Nesse sentido, “primeira vez” é menos um marco histórico isolado e mais uma condição de abertura: o instante em que algo se torna possível e produz deslocamentos no olhar e na imaginação.
Ao mesmo tempo, essa primeira vez não é necessariamente única ou absoluta. Muitas vezes, aquilo que identificamos como “primeiro” é apenas o vestígio mais antigo que conseguimos localizar — uma camada visível que encobre outras experiências anteriores, esquecidas ou não registradas. Há também primeiras vezes que são, na verdade, redescobertas: momentos em que algo já vivido retorna como novidade, reacendendo o espanto e a curiosidade. Assim, a primeira vez pode ser também uma sensação, uma experiência renovada de encontro com o cinema.
Iremos nos guiar tanto por experiências sensíveis quanto por acontecimentos históricos. Entre eles, evocam-se episódios marcantes da relação entre cinema e educação no Brasil, como a exibição do cinematógrafo em uma sala de aula em 1896, na Escola Normal Modelo do Maranhão; a presença de um cinematógrafo em sala de aula no filme brasileiro Romance Proibido (Ademar Gonzaga, Brasil, 1944); e a realização de O Parque (1963), considerado o primeiro filme realizado em uma escola pública, no Rio de Janeiro. Trata-se da primeira produção audiovisual conhecida, realizada por estudantes de educação básica. Sua produção contou com o apoio do INCE, e ele foi gravado durante as férias de inverno, depois do Curso de Iniciação ao Cinema oferecido pela professora de português e literatura Maria José Alvarez, entre março e junho de 1963, na Escola Brigadeiro Schorcht, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Cada um desses momentos aponta para diferentes modos de encontro entre escola, estudantes e imagens em movimento.
Ao reunir essas memórias e experiências, a proposta curatorial busca reativar o espírito de descoberta que acompanha o cinema desde sua origem. Primeira vez é, assim, um convite para olhar o cinema — e a própria educação — como territórios sempre abertos à invenção, onde cada nova sessão pode devolver aos espectadores a alegria inaugural de ver o mundo pela primeira vez.
Este conceito também se relaciona com os 47,1 milhões de estudantes identificados pelo censo de 2024, que ainda estão esperando um trem, no aguardo da regulamentação da Lei Federal 13.006/2014. E desta vez parafraseando o filme do documentarista chileno Ignacio Agüero, 100 niños esperando un tren, em alusão a essa primeira vez do cinema. Essa espera não é passiva, é uma espera carregada de imaginação, de expectativa e de desejo. Cada estudante que ainda não viu um filme na escola guarda consigo a possibilidade de uma primeira vez — um instante de encantamento capaz de transformar o olhar e ampliar os horizontes do mundo. Talvez seja justamente essa promessa que sustenta a curadoria: lembrar que, em algum lugar do país, há sempre crianças e jovens esperando que o cinema finalmente chegue à escola — e que, quando chegar, possa fazê-lo como se fosse sempre pela primeira vez.
Curadoras
Adriana Fresquet
Clarisse Alvarenga
