Como elas começaram? Memórias do primeiro filme
A primeira vez a gente nunca esquece!!!
Esse é um bordão da cultura popular, com variações empregadas na publicidade. Um bordão apoiado na sabedoria retórica e na estratégia da repetição, até se tornar verdade absoluta, mas um bordão também revestido de uma natureza farsesca. Bordões têm força, mas são bordões. Não podem ser alçados à condição de filosofia ou de máxima da vida. A primeira vez, se não for lembrada, a gente esquece, poderíamos acrescentar. E quem é a gente? Pode ser quem viveu a experiência, quem soube dela ou quem a testemunhou.
Pode-se esquecer a primeira vez. E como se esquece. É da vida. Sem esquecimento, não há memória, um processo seletivo, documentado ou cognitivo. Memória como o que resta da experiência, sobrevivente da ação desgastante do tempo, da ignorância, do descaso e da indiferença, que resiste à morte ou dela ressurge, não mais como fantasma de algo do passado, mas como ressurreição ou reencarnação em outro contexto e com outros sentidos.
Em um evento regido pelo cultivo da memória, material e simbólica, como tem sido a CineOp desde 2006, a primeira vez é para ser lembrada, resgatada e celebrada, quem sabe ressignificada e até mitificada, jamais embalsamada e mumificada. Afinal, a preservação do que exatamente foi, na prática, é também a morte do passado como presente. Toda memória é também uma renovação de ideias, sentimentos e vivências, não seu congelamento meramente factual.
É da vida e da arte essa necessidade de movimento e de mudança, de olhar com outras perspectivas e de modo retroativo, sem estar no calor do instantâneo. Contra a morte e o apagamento, contra o congelamento de dados e de visões, só resta o compartilhamento da memória viva e em movimento, individual e em grupo. Nem mesmo os documentos revelam os mesmos sentidos e significados de suas evidências, a depender da época e do olhar de quem deita seus olhos e seu entendimento sobre eles.
Em cinema, como em tudo na vida, pode haver muitas primeiras vezes, em vários segmentos da atividade. Nossa temática histórica enfocará o primeiro filme de diretoras brasileiras, sobretudo os caminhos até o primeiro longa-metragem, uma proeza em si (fazer um primeiro longa), mas proeza maior quando é o primeiro longa de uma mulher, seja pela hegemonia masculina na direção (ainda hoje), ainda mais hegemônica em décadas anteriores, seja pela própria condição das mulheres no mercado de trabalho.
São muitas estradas a percorrer até o primeiro take, outras até a primeira cena projetada pela primeira vez em público. São muitos obstáculos, preconceitos, desafios à tradição, muitos acidentes, mas também muitas travessias, superações e reconhecimentos. Ainda não não há traços reconhecidos e reconhecíveis de quem irá dirigir, ainda não se tem um nome na área ou um assinatura própria, mesmo tendo realizado curtas-metragens antes. Há a liberdade traiçoeira dos abismos aos quais nos lançamos sem muita garantia.
É preciso provar nesse primeiro filme que cinema (e a direção de longa-metragem) não é coisa de homem, que lugar de mulher não é apenas diante da câmera, na equipe de produção ou de direção de arte, que todas as funções podem ser apropriadas, mesmo quando tratadas como propriedades privadas da comunidade masculina. O interior da casa, lugar a qual as mulheres historicamente foram destinadas, pode se tornar um set.
Não haveria necessidade nenhuma de provar nada, já que, ainda nas primeiras cinco décadas de existência do cinema, umas tantas mulheres, mesmo numericamente minoritárias, escreveram seus nomes em suas imagens para seus presentes e para a posteridade, gerando reverberações críticas e culturais nem sempre repercutidas ao longo dos tempos – como a francesa Alice Guy, a estadunidense Lois Weber, a argentina Emilia Saleny, a russa Esfir Shub ou a japonesa Kinuyo Tanaka, todas pioneiras. No Brasil, foi Cleo de Verberena, com o longa O Mistério do Dominó Preto (1930), quem, há 96 anos, arriscou-se, renitente, à direção. Da sua proeza, restam apenas notas de jornais da época.
Antes dos anos 1970, o ponto de inflexão do cinema feito entre mulheres, outras surgiram, foram consagradas e consideradas autoras: de Ida Lupino a Shirley Clark nos EUA, de Germaine Dulac a Agnes Varda na França, de Adela Sequeyro a Matilde Landeta no México, Heiny Srour no Líbano, Selma Baccar na Tunísia e Vlasta Lah na Argentina. Não podemos esquecer, ainda, as brasileiras Gilda de Abreu, Carmem Santos, Maria Basaglia, Carla Civelli e Zélia Feijó Costa, estreantes em longas. Dito isto, ainda precisamos decifrar seus caminhos trôpegos e obstinados para seguirmos trilhando as curvas obscurecidas da história do cinema.
Como Elas começaram? – Memórias do Primeiro Filme abordará, com exibições e rodas de conversas, os contextos, os estímulos e a concretude da realização de primeiros longas de diretoras brasileiras iniciadas em diferentes décadas. Tomando os anos 1970 como um marco histórico do surgimento do que se convencinou chamar de um “cinema de mulheres”, daremos ênfase aos filmes produzidos a partir desta virada política, estética e narrativa, valorizando obras com personagens femininas fortes, com atrizes em atuações marcantes e que apresentem noções do feminino fora dos seus enquadres tradicionais (o sexo, a casa, a mãe, a esposa).
Quais as dificuldades e conquistas dessas mulheres até o primeiro longa? Por que escolheram o cinema como atividade? Como foram tratadas pelos homens com os quais lidaram em seus inícios? O que queriam quando decidiram dirigir? Na modalidade presencial e online, cobriremos 60 anos de programação, sempre que possível priorizando cópias restauradas: cada vez mais, os filmes de autoria feminina têm sido recuperados não só por esforços historiográficos, mas por iniciativas materiais de sua preservação.
Poderemos, assim, elevar a força formal e temática reveladoras de contextos de criação de obras como o mítico e alegórico Cristais de Sangue (1975), de Luna Alkalay; o assumidamente feminista Feminino Plural (Vera Figueiredo, 1976), que completa 50 anos e precisa ser mais conhecido e debatido; Mar de Rosas (Ana Carolina, 1977), estreia na ficção da uma das mais importantes e formalmente inventivas diretoras iniciada nos anos 1970; Que Bom te Ver Viva (Lucia Murat, 1989), que abriu o caminho de uma cineasta de filmografia sempre política; e Um Céu de Estrelas (Tata Amaral, 1996), uma das principais estreias de diretoras em longa nos difíceis anos 1990, que completa três décadas.
Os anos 2000 também marcam presença com Girimunho (2011), primeira incursão de Clarissa Campolina nas paisagens interioranas, selvagens e um tanto mágicas de Minas Gerais; Amor, plástico e barulho (2013), musical brega que transforma Renata Pinheiro na primeira realizadora pernambucana a concluir um longa ficcional; Baronesa (Juliana Antunes, 2017), outro jovem clássico do cinema mineiro, consagrado em Tiradentes; e Um Dia com Jerusa (Viviane Ferreira, 2020), um dos primeiros longas ficcionais de uma diretora negra lançado em circuito comercial desde o suspense sapatão Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio. Se hoje uma estreante negra deixou de ser uma figura isolada – vide, na programação, Chico Rei entre nós (2020) de Joyce Prado, diretora que partiu prematuramente, no final de 2025 – essa presença permanece extremamente minoritária num campo que ainda precisa radicalizar e pluralizar suas autorias, em vários sentidos.
Poderemos escutar, no encontro intergeracional provocado por rodas de conversas, as memórias confluentes e singulares das contendas e conquistas do despertar dessas cineastas que dobraram, cada uma a seu tempo, o curso da história. Da repressão ditatorial e das crises econômicas agravadas pelo governo Collor no final do século XX, à lógica racista-patriarcal constitutiva da sociedade brasileira que segue alicerçando um campo cultural historicamente (e ainda hoje) masculinizado, embranquecido e normativo, os cenários criativos permanecem inóspitos – mas não inabaláveis.
Neste sentido, homenageamos Helena Solberg, com a exibição, na abertura da CineOP, de seu primeiro curta, A Entrevista (1966), que completa 60 anos. Considerado a obra matricial de uma cinema feminino e feminista moderno, o filme reúne uma série de depoimentos de jovens de 19 a 27 anos que instituem uma insolucionável ambiguidade ao tensionar falas que comprovavam tanto a alienação das jovens da classe média brasileira, quanto suas justificadas insatisfações com os papéis de gênero que lhes eram atribuídos. A Entrevista apresentaria temáticas nunca trabalhadas no cinema nacional a partir de uma abordagem formal igualmente inovadora, incomum à produção cinemanovista daquele momento. Mesmo sendo um documentário, a obra deixa-se contaminar pelas possibilidades expressivas da encenação. Além de A Entrevista, exibiremos a “Trilogia da Mulher”, produzida junto ao coletivo International Women’s Film Project, formado por Helena dos Estados Unidos nos anos 1970, assim como Carmem Miranda: Banana is my Business (1995), e suas duas experiências na ficção: o curta Meio-dia (1971) e o longa Vida de Menina (2003), baseado no romance diamantinense de sua homônima, Helena Morley.
O conjunto de obras que se aproximam por nossa pergunta curatorial está longe de revelar consonâncias de linguagem, mas apontam para uma partilha de desejos obstinados que disparam inícios tortuosos, mas possíveis, apesar de tudo.
Cleber Eduardo
Juliana Gusman
Curadores Temática Histórica