CRIAR EM MODO REMOTO E RETOMAR O CONTATO

A Mostra Educação da 17ªCineOP está composta por duas sessões de filmes selecionados por meio de uma convocatória, proposta pela curadoria da Temática Educação, que enfatizava a diversidade de cinemas, de educações e suas relações. Nas duas sessões podemos notar situações que giram em torno de processos de criação audiovisual tanto durante o período da pandemia quanto no contexto de retomada do contato e de presença nos espaços públicos da cultura e da educação.

No primeiro caso, é possível ver trabalhos realizados fora das escolas, ainda fechadas em decorrência da covid-19. Os filmes apresentam então outras formas de fazer cinema e também guardam em sua forma fílmica os impactos da pandemia. Trata-se de um retrato do cinema e da educação em tempo de pandemia no Brasil com suas limitações, tentativas e descobertas. No segundo caso, temos um conjunto de filmes nos quais se acompanha a retomada do contato presencial entre as pessoas, a ocupação dos espaços com a valorização do contato físico, da presença, dos processos subjetivos e das conversas e trocas.

No conjunto, as duas sessões nos dão a ver que não foi apenas a experiência do remoto que exigiu da educação e do cinema outros processos e outras formas de se comunicar. A retomada dos espaços também tem oferecido uma série de questões e desafios que os filmes, cada um a seu modo, elaboram. Nesse sentido, a demanda por uma atenção a esses momentos distintos envolve toda a comunidade escolar e a sociedade, de um modo geral. Isso pode ser visto em filmes feitos por crianças, jovens e também por educadores. Há ainda filmes de cineastas que dialogam com as questões vivenciadas no campo da educação, o que traz uma contribuição para ampliar as relações entre cinemas e educações, complexificando-as.

Além dos filmes que integram as duas sessões da Mostra Educação, teremos ainda três sessões de filmes que dialogam com as três Masterclasses Internacionais do evento. Em uma das sessões será exibido o filme O Curral e o Vento(2014), do cineasta e formador boliviano Miguel Hilari. O filme é uma oportunidade de conhecer a obra de Hilari, conectada com a origem aymara do cineasta por meio de imagens e sons que evocam o tempo e espaço andinos. Com uma clara inspiração nas suas origens e na defesa da educação do campo, ele terá também outros dois filmes mais recentes na programação da Mostra Educação: Companhia (2019) e Bocamina (2020).

Haverá uma sessão reservada para a apresentação dos Dicionários Audiovisuais Comunitários, realizados no âmbito do projeto La Combidel Arte, no Peru. Trata-se de um projeto voltado para a revitalização de línguas indígenas por meio da presença do cinema nas escolas indígenas peruanas. Nesse caso, são trabalhos que aproximam a experiência do cinema das escolas e das crianças, apostando no cinema como forma de transmissão cultural. Teremos a oportunidade de conhecer os filmes e também conhecer um pouco mais o projeto com a masterclass ministrada por Teresa Castillo.

Para completar a programação, uma última coleção de filmes está em diálogo com a masterclass de Aldana Loiseau que trata de processos de criação envolvendo a técnica da animação, em que os elementos a serem animados estão vinculados à terra. Ao narrar uma cultura andina milenar do norte da Argentina, o barro –um elemento tradicional –é posto em diálogo com as técnicas da animação.

Toda a programação de filmes envolve propostas criativas e pedagógicas que oferecem questões para se pensar outras educações, outros cinemas e as diversas relações possíveis entre esses dois campos. Para além da naturalização da educação e do cinema, os trabalhos aqui apresentados nos fazem pensar o quanto cada uma dessas iniciativas traz perspectivas singulares de articulação entre as experiências dos sujeitos, seus territórios, culturas, histórias, cinemas e educações.

Curadoria Temática Educação