As Cartas de Ouro Preto são documentos que representam as resoluções finais do 17º Encontro Nacional de Arquivos Acervos Audiovisuais Brasileiros redigida pelos membros da ABPA, Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, e também pelos participantes do XIV Encontro da Educação: Fórum da Rede Kino. 

Todos os anos, as reflexões e compartilhamentos trocados durante a CineOP ficam registrados. O texto reúne os planos traçados durante os encontros, tanto para o campo da preservação como também para a educação.

Confira os documentos, na íntegra, abaixo.


Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais

Carta de Ouro Preto 2022

A Associação Brasileira de Preservação Audiovisual – ABPA, reunida de forma presencial no Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros durante a 17ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, reconhece a existência de novos protagonistas e o surgimento de práticas inovadoras no campo da preservação audiovisual. Essa conjuntura traz novas perspectivas e, ao mesmo tempo, amplia os desafios já existentes.

A ABPA ressalta a importância de diversas ações e projetos relacionados à memória audiovisual de grupos historicamente invisibilizados, como povos indígenas, comunidades periféricas, quilombolas, LGBTQIAP+ , mulheres, migrantes, entre outros. Tais projetos têm enfrentado uma série de dificuldades que limitam o alcance de seus resultados. Esse cenário confirma a contundente ausência de políticas e apoios sistemáticos dos poderes públicos para ações, iniciativas e instituições dedicadas à salvaguarda do patrimônio audiovisual brasileiro.

Portanto, reivindicamos o cumprimento das disposições constitucionais relativas ao pleno exercício da cidadania, dos direitos culturais e à proteção do patrimônio audiovisual, que inclui a efetiva regionalização e descentralização dos recursos.

A ABPA coloca-se, novamente, como interlocutora privilegiada para a construção de políticas públicas nacionais de preservação audiovisual verdadeiramente inclusivas, plurais e democráticas.

Ouro Preto, 27 de junho de 2022.

Associação Brasileira de Preservação Audiovisual – ABPA


XIV Encontro da Educação: Fórum da Rede Kino. 

Carta de Ouro Preto 2022

“Vamos falar sobre essa presidência, para o meu povo só traz violência”, cantou Daniel Damas, jovem negro, Mc, estudante e aluno de um dos vários projetos apresentados nesta edição dos encontros KINO, ecoando a voz de muitos povos indígenas que estiveram reunidos na 17ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, 14ª Fórum da Rede KINO – Rede Latina Americana de Educação Cinema e Audiovisual.

As ressonâncias da violência podem fazer um corpo arder em ódio, um ódio genuinamente expresso por Johnn Nara Gomes, que ao exibir o filme-luto Ava Yvy Vera na  17˚ Mostra de Ouro Preto vivia um novo luto pelo assassinato de parentes Kaiowá acontecido às vesperas desta Mostra Homenagem. Um ódio, portanto, que não precisa de um pedido de desculpas, porque é a potência desse corpo afetado que reage, cria, se faz coletivo e compartilha modos de vida que resistem e lutam para existir. 

As imagens dos filmes assistidos e dos projetos educativos apresentados nos colocaram diante de modos diversos do cinema funcionar no encontro com situações formativas, apontando a pertinência do plural, CINEMAS e EDUCAÇÕES, para aquilo que emerge como práticas e experiências, como imagens e sons, como montagens e políticas.

Contagiados por essas forças, os encontros da KINO desta edição – compostos por pessoas e filmes indígenas, brasileiros, argentinos, peruanos e bolivianos – nos permitiu reconhecer a potência da rede na conexão de nossos trabalhos e lutas, bem como propor uma coordenação latino americana e um programa de ação da Rede KINO, sintetizado nos seguintes pontos:

  1. Mapear obras audiovisuais e difundir o Acervo Audiovisual Escolar Livre, criando percursos pedagógicos, permitindo que o cinema realizado na América Latina, em suas diversas matrizes, contextos, línguas e formas de expressão, possa ser partilhado em todos os espaços-tempos de educação, legendados e dublados para favorecer a acessibilidade com todas as formas de tecnologias assistivas.
  2. Colaborar com a transformação do imaginário colonizador historicamente instaurado e dar lugar à diversidade pluricultural que constitui nossos povos, por meio da difusão de seus filmes nas escolas e universidades. Filmes que expressam alternativas ao projeto capitalista global e se efetivam como documentos fundamentais para a preservação e transmissão da memória dos nossos povos.
  3. Fortalecer a produção acadêmica do campo da educação, cinema e audiovisual, demonstrando a singularidade do pensamento latinoamericano e construindo novas  alianças entre educadores dos diferentes níveis de ensino, com o intuito de forjar novos horizontes teóricos e conceituais, e outras epistemologias.
  4. Construir Grupos de Trabalho para retomar, institucionalmente, a discussão de políticas públicas para a educação, cinema e audiovisual, como a regulamentação da Lei 13.006/14, assim como a regionalização de programas de cooperação nos níveis municipal, estadual e federal.
  5. Ampliar a circulação dos projetos ligados à Rede Kino e de seus integrantes, permitindo um intercâmbio entre as universidades, grupos de pesquisa, escolas, metodologias, saberes, imagens e sons, dando a ver a amplitude da rede e das ações já existentes.
  6. Expandir a atuação da Rede Kino ao articular os festivais e programas de cinema e educação na perspectiva de um pensamento que seja menos demarcado pelas fronteiras modernas definidas pelos Estados-Nação e mais orientado pelas alianças – culturais, políticas, institucionais etc – construídas a partir da própria capilaridade da rede.  

Assim reafirmamos que o afeto da amizade como sustento inicial da rede torna-se seiva que se expande e frutifica no rizoma que a Kino é.

14ª Fórum da Rede KINO – Rede Latina Americana de Educação Cinema e Audiovisual