ALÊ ABREU | ANIMADOR E DIRETOR

COERÊNCIA, AUTORALIDADE E INDEPENDÊNCIA NA ANIMAÇÃO

Alê Abreu é o homenageado da 19ª CineOP. O cineasta é o nome mais internacional da animação brasileira. Teve dois dos três longas metragens exibidos no Festival de Aneccy (O Menino e o Mundo e Perlimps), o evento mais importante da animação, onde chegou a ser premiado (com O Menino e o Mundo). E ainda foi indicado ao Oscar da categoria (com o Menino e o Mundo). Isso foi há 11 anos. Abriu portas para ele e para a animação brasileira.

Essa repercussão positiva em termos de mercado e prestígio tem sua importância em um momento de transições na atividade da animação, nunca tão ativa, mas sempre com muito a ser feito em seu universo estruturante, que oscila entre o tempo e a energia de dedicação às obras autorais e a necessidade material de atender as demandas de mercado.

O diretor, desenhista e artista visual paulista se tornou  um emblema de criatividade formal e de processo autoral independente em sua criação. O Menino e o Mundo é uma das mais expressivas obras de todo o cinema brasileiro, incluindo ficções, documentários e variações. Exagero? Acreditamos, convictamente, que não. O filme foi eleito a melhor animação do país em votação organizada pela ABRACINE (Associação Brasileira de Crítica de Cinema). E é altamente subversivo em relação às noções de narratividade, de espacialidade e de movimentos. Um experimento radical (também para crianças)

A homenagem ultrapassa esse filme-fenômeno. Está ancorada, principalmente, em uma trajetória. Não exatamente numerosa, cheia de títulos na animação, mas coerente e obsessiva. É um reconhecimento a um percurso autoral que, neste momento, completou 31 anos de seu primeiro curta-metragem, Sirius (1993), no qual traços de seu estilo visual, narrativo e dramático estavam já semeados, e logo após o aniversário de 10 anos de O Menino e o Mundo (2013). 

Embora tenha atuado em diferentes atividades relacionadas ao desenho e à ilustração, em livros, publicidade e séries, Alê Abreu, aos 53 anos, é a assinatura mais reconhecida dos últimos anos do cinema de animação no Brasil. especialmente por fugir dos padrões uniformizantes da animação mais industrial e fazê-lo com muita ênfase na visualidade e na criação de mundos próprios, que, se nutrem relações com a realidade, nunca é de modo direto.

Sirius e O Espantalho, o curta seguinte ao de estreia, também de 1993, revelam pontos em comum, mas também contrastes. Há em ambos a falta de palavras, o investimento nas cores (mais sóbrias no primeiro, mais quentes no segundo), personagens solitários que interagem com seres de outra natureza, a convivência entre desenhos e fotos na animação e uma importância estruturante da trilha musical, delicada e sentimental. São curtas de uma beleza melancólica, de uma realização infantil pela imaginação. 

Essa preferência por protagonistas que vivem situações iniciáticas, de encontros transitórios e deslocamentos de aprendizado, será retomado nos longas-metragens. Alterna-se entre o mundo tal qual se conhece e o desconhecido diante do qual será preciso se reinventar. Há um mistério, um deslocamento a ser realizado, a abertura para experiências nem sempre determinadas e claras em seus caminhos. Sobretudo em Menino e o Mundo e Perlimps, filmes a princípio contrastados entre si, mas próximos de  uma mesma visão de cinema: o que não está evidente, mostrado e explicado é tão importante quanto o que se sabe. 

A estreia em longa-metragem, Garoto Cósmico (2007), é uma junção de duas histórias, ambas escritas em cadernos de anotações e desenhos do autor: uma lidava com o circo, outra com o espaço. O filme é a jornada dos rebeldes mirins que, meio acidentalmente, escapam de uma sociedade de controle fria e codificada em números (ao estilo de George Orwell em 1984), em 2973, na Galáxia Sétima, Sistema Solar 54, e vão ao encontro casual com uma trupe circense em um mundo colorido, no qual as singularidades estão acima das homogeneizações. Antes de ir às imagens, leitura de roteiro com crianças e realização de um documentário sobre o mundo do circo, feito como preparação para o filme

Depois do êxito do segundo longa, O Menino e o Mundo, com sua jornada ao mesmo tempo delirante e simples, com experimentos visuais e um encadeamento de fragmentos autônomos, que não chega a constituir uma narrativa, Alê dirigiu Perlimps, seu filme mais colorido, sem os campos brancos do filme anterior, com dois personagens antagonistas perdidos em um bosque ameaçado por gigantes. É um Esperando Godot (de Samuel Beckett) para crianças, na floresta, com dois inimigos unidos na circunstância (de sobrevivência), à espera de um inimigo comum que nunca chega para enfrentarem. 

É um filme aparentemente mais narrativo, mais controlado e mais atrelado ao mercado, mas só aparentemente, porque o que se encontra, na relação entre as imagens, no ritmo e na espera pelo climax adiado, é uma obra muito autoral e rompida com as seduções fáceis. Os mistérios são preservados dos desejos insaciáveis de revelação. Sem a mesma repercussão de O Menino e o Mundo, mas ainda assim entrando em Aneccy, Perlimps manteve o diretor no cenário internacional e em uma trajetória de preservação e mudanças a um só tempo

A exibição de seus curtas e longas na programação da 19ª CineOP, em suas versões presenciais e online, é uma oportunidade de vermos em conjunto uma obra coesa, apesar das diferenças, em constante desenvolvimento, fiel a seus primeiros passos, mas com a adição da maturidade e da relação com o mundo fora do papel e das telas.

Cleber Eduardo
Curador – Temática Histórica

Fábio Yamaji
Curador Assistente – Temática Histórica

Fotos: Leo Lara / Universo Produção