O CONTRACINEMA DE HELENA SOLBERG
Nos anos 1970, uma ainda incipiente crítica de cinema feminista começava a se sistematizar, motivada por um corpo fílmico que também se engrandecia em volume e arrojo. Contra convenções estéticas, narrativas e normativas, mais mulheres passaram a questionar as convenções do olhar cinematográfico e a instituir suas próprias imagens. Entabulando um “contracinema”, nas palavras de Claire Johnston, autora de um dos textos matriciais dessa nova abordagem crítica, Women’s cinema as a counter-cinema (1973), jovens realizadoras conquistaram o domínio das câmeras e passaram evidenciar subjetividades até então reprimidas em cena. Muitas cineastas, como as belgas Agnès Varda e Chantal Akerman, no contexto europeu, ou, no cenário latino-americano e caribenho, a cubana Sara Gómez, a costarriquenha Kitico Moreno e a argentina María Luisa Bemberg responderam, de maneiras radicalmente distintas, a essa interpelação.
Helena Solberg, carioca nascida em junho de 1938, foi uma das primeiras realizadoras a torcer hierarquias visuais de um cinema brasileiro até então – e talvez até hoje – predominantemente masculinizado. Em A entrevista (1966), que virgula a nossa historiografia ao se tornar o primeiro curta-metragem feminino e feminista do cinema moderno nacional, Solberg reúne uma série de depoimentos de jovens de 19 a 27 anos que comentam, com notáveis discordâncias, sobre questões que orbitam sua experiência cotidiana aburguesada. O matrimônio, o destino das boas moças abastadas, é tão premente que ganha destaque no plano visual: já que nenhuma personagem aceitou revelar a identidade, com receio de sofrer repreensões familiares, a diretora convidou sua cunhada, Glória Solberg, para encenar o dia de uma mulher que se prepara para seu próprio casamento. A obra é atravessada por uma insolucionável ambiguidade ao tensionar falas que comprovavam tanto a alienação das jovens da classe média alta brasileira, quanto suas justificadas insatisfações com os papéis de gênero que lhes eram atribuídos. De qualquer forma, o filme apresentaria temáticas nunca trabalhadas no cinema nacional a partir de um manejo de linguagem igualmente inovador.

Créditos: Ique Esteves/ Universo Produção

Créditos: Acervo pessoal
A entrevista influenciou os três filmes seguintes de Helena Solberg, que integram a Trilogia da Mulher, realizados nos Estados Unidos a partir da década de 1970, onde a cineasta passou a viver com o marido e os filhos. The Emerging Woman (1974), The double day (1975) e Simplesmente Jenny (1977) cobrem um extenso período de lutas e reivindicações no continente americano, do século XIX até meados da década de 1970, quando são lançados. Tratam do sufrágio feminino, da equiparação de salário e de condições de trabalho com os homens; do direito à liberdade de expressão; do controle da natalidade, da legalização do aborto; do direito ao divórcio e à guarda dos filhos; da exploração do trabalho feminino; da violência contra as mulheres; do papel da Igreja Católica e da mídia na disseminação de imagem idealizada da mulher e da possibilidade de conscientização e mobilização.
Esses filmes fizeram parte do International Women’s Film Project, um coletivo encabeçado por Helena em Washington. As produções, de caráter documental, eram viabilizadas por contribuições de fundações norte-americanas e internacionais, alimentando o contexto de ebulição do cinema feminista. O processo era sempre colaborativo: cada integrante dava sugestões em todas as etapas, em oposição à forma tradicional e autoral de se fazer documentários. O diretor individual é substituído por uma visão coletiva de tintas militantes e aspirações transformativas. Nos anos 1980, Helena se distancia das temáticas feministas para tratar de questões da política latino-americana, sobretudo das ditaduras que contaminaram, com fúria, os nossos territórios. Entre outros filmes, destacam-se The Brazilian Connection, a struggle for democracy (1982/1983) e Chile, by reason or by force (1983) e A terra proibida (1990).
No seu retorno ao Brasil, nos anos 1990, Solberg reinventa-se mais uma vez com seu primeiro longa-metragem, Carmem Miranda: Bananas is my business (1995), um filme biográfico da artista luso-brasileira que evoca, de uma maneira original, voz em primeira pessoa de Solberg, que parte de uma memória infantil e afetiva para desenvolver uma obra que também articula arquivos e reencenações.
Em 2017, após algumas incursões na ficção – como Vida de Menina (2003) – Helena Solberg volta à temática feminista e lança Meu Corpo, Minha Vida, sobre (a falta de) direitos reprodutivos no país. Com base na trajetória de Jandyra Santos, vítima fatal de um aborto ilegal em uma clínica clandestina em Campo Grande, no Rio de Janeiro, aos 27 anos, Helena firma, mais uma vez, o seu compromisso político e artístico com as nossas vidas. Seu filme mais recente, Uma carta para Beatrice (2022), atualiza este pacto ético e a sua curiosidade insaciável com a pluralidade desafiadora da subjetividade e das contendas femininas. Em 2026, Helena completa 88 anos.
Curadores
Cleber Eduardo
Juliana Gusman
Assistente
Lucas Honorato