AO ATOR CHICO DIAZ

Com mais de quatro décadas de carreira, Francisco Diaz Rocha, o Chico Diaz, é um dos atores mais profícuos do cinema brasileiro. Nascido na Cidade do México, de mãe brasileira e pai paraguaio, viveu também no Peru antes de se estabelecer no Rio de Janeiro no fim dos anos 1960. Essa experiência transnacional na América Latina lhe deu, por condição e experiência, uma bagagem singular pra construir uma carreira no país e no exterior. Nas últimas quatro décadas é um dos atores brasileiros que marcaram com mais ênfase o cinema de seu tempo. Fez filmes marcantes nas décadas de 1980, 1990, 2000 e 2010. Fez muito cinema e televisão, mas também se exercitou no teatro.

16ª CINEOP – Chico Diaz, homenageado da mostra – Foto: Leo Lara/Universo Produção

Nosso homenageado começou no teatro no fim dos anos 1970 e em 1982 atuou em seu primeiro filme O Sonho Não Acabou, de Sergio Rezende, que lançou no cinema vários atores de sua geração como Miguel Falabella e Lucélia Santos. 1982, quando Diaz estreia no cinema, é o ano posterior do ano de maior êxito de ocupação de mercado da Embrafilme, é quando começa uma crise do cinema brasileiro que anunciava uma mudança no mercado brasileiro de cinema. Por isso seus primeiros filmes soam como, ao mesmo tempo o início e o ocaso de uma geração, não por acaso o ator também está em A Cor do Seu Destino, de Jorge Durán, filme também de traço geracional com jovens e importantes atores em início de carreira, pelo qual Diaz ganhou o candango de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília. Tanto O Sonho Não Acabou quanto A Cor de Seu Destino compõem um grupo relevante de filmes do período que refletiam as décadas anteriores, os anos 1960 e 1970, desde a perspectiva de personagens que viveram sua juventude no período do regime militar, e se fizeram nos estertores da Embrafilme que teria seu fim no início dos anos 90.

Entre O Sonho Não Acabou e Barrela: Escola de Crimes (1990), de Marco Antonio Cury, Diaz trabalhou com diretores como Cacá Diegues (Quilombo), Walter Lima Júnior (Chico Rei e Inocência), Tizuka Yamazaki (Parahyba Mulher Macho), Zelito Viana (Avaeté), Paulo Thiago (Águia na Cabeça), Ruy Guerra (A Bela Palomera), Bruno Barreto (Gabriela), entre outros, geralmente em papéis coadjuvantes, mas com performances marcantes.

Diaz é ator de um dos filmes mais importantes do início Retomada: A Terceira Margem do Rio (1994), de Nelson Pereira dos Santos. E seria ai, na década de 1990, que Chico Diaz se tornaria um ator emblema desse período em filmes Corisco e Dadá (1996), de Rosemberg Cariry (melhor ator no festival de Gramado), Os Matadores (1997), de Beto Brant e Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

Nos anos 2000 ele filmou muito, filmes de diferentes diretores, de diferentes volumes de produção e distintos desafios, com destaque para  o estridente Amarelo Manga (2002), de Claudio Assis e a crônica carioca Praça Saens Pena (2008), de Vinicíus Reis.

16ª CINEOP – Chico Diaz, homenageado da mostra – Foto: Leo Lara/Universo Produção

Seu rosto de traços fortes, ajuda a delinear um estilo, marcado por uma vocalização singular, grave e flexível, modulada por performances versáteis, o que impõe uma qualidade intensa de presença, o que para o cinema que se faz entre o dinamismo do movimento e os primeiros planos, gera um efeito poderoso na tela. No seu trabalho é evidente que seu processo é ao mesmo tempo sensível e minucioso, mas também de uma inteligência rara. Chico Diaz sempre está em perfeita consoância com os diferentes projetos estéticos dos filmes em que atua, nunca em modo de autonomia narcísica. Sua técnica e sua sensibilidade se integram aos filmes, contribuem com os filmes. Todo filme em que interpreta um personagem, desde uma obra experimental e épica como Guerra do Paraguay (2017), de Luiz Rosemberg até uma comédia de sucesso como Cine Hollyudi 2: a Chibata Sideral (2018), ganham em força e poesia.  Seja como protagonista ou coadjuvante, sua presença em tela catalisa as energias dos filmes, nos traduz e nos oferece a uma experiência sensível e inteligente, coisa que só se pode dizer dos grandes atores.

Cleber Eduardo
Francis Vogner dos Reis
Curadores – Temática Histórica