Imagens e lembranças sobre ontem e hoje

Os filmes que vão compor a Mostra Preservação da 17ª CineOP reverberam as diretrizes que a curadoria adotou para este ano: pensar o audiovisual e sua relação com a memória, vinculada a histórias de resistência e resiliência. Há todo um horizonte semidesconhecido que fala e se expressa na resistência social, de resiliência técnica e tecnológica, de resistências por efetivar memórias, de luta por pautar narrativas não hegemônicas. Poderíamos falar de uma miríade de formas de resistir e permanecer presente, apesar das circunstâncias humanas, históricas, políticas, sociais.

Foi na tentativa de expressar parte desse universo em transmutação que selecionamos alguns filmes. Nem todos puderam estar na programação. Mas estes que apresentamos são bons representantes das questões que procuramos abordar na curadoria deste ano.

A História da Guerra Civil, de Dziga Viértov (1896-1954), escreve duas histórias de resistência e resiliência: a da própria realização do filme e o precioso trabalho de restauração e reconstituição da obra, empreendido pelo historiador russo Nikolai Izvolov. Nesta sessão, para comentar o filme, teremos a presença do pesquisador Luís Labaki, profundo conhecedor da obra de Viértov, que fará uma apresentação antes da exibição. Conecta-se ainda a essa exibição o case de restauro online: A Guerra Civil na Rússia pela Câmera de Dziga Viértov e o Restauro do Filme 100 Anos Depois –com Nikolai Izvolov, responsável pela organização, reconstituição e restauração da obra.

O filme Cine Marrocos, de Ricardo Calil, dialoga com o presente e o passado de uma sala de cinema que foi fechada no Centro de São Paulo.O espaço é ocupado por pessoas com trajetória de vida nas ruas e, a partir de uma proposta do diretor, assistem a filmes que passaram nesse cinema 60 anos antes. Quando é proposto o exercício artístico de reencenarem, como atores, cenas a que assistiram, o resultado mostra a emersão de memórias pessoais dos envolvidos.

A sessão Operações de Memória será composta pelo curta Confissões Documentais e por filmes domésticos, originalmente feitos na bitola 9,5mm, digitalizados pelo Lupa (Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual) da Universidade Federal Fluminense.

Confissões Documentais documenta o encontro dos cineastas João Batista de Andrade e Linduarte Noronha, em João Pessoa, no ano de 2007. A conversa se dá pela admiração de João Batista pelo filme Aruanda e, num bate-papo fluido e simpático, falam sobre a realização do filme e de sua influência no cinema documental de João Batista.

Já os Filmes Domésticos do Lupa, na bitola 9,5mm, realizados nas décadas de 1920 e 1950, testemunham a resistência da obra cinematográfica que sobrevive ao tempo e às mudanças tecnológicas, sendo “devolvida” ao ciclo cultural de sua comunidade, quando digitalizada e exibida novamente. Como nos explica o coordenador do Lupa, Rafael de Luna, “o sistema 9,5mm ou Pathé Baby (formado por filme, câmera e projetor) foi lançado em 1922 e se transformou no mais utilizado formato para filmagens amadoras no Brasil. Devido ao seu baixo custo, facilidade de uso e portabilidade, manteve-se popular até os anos 1950. Esse programa revela a importância dos filmes em 9,5mm para a história do cinema amador no Brasil e, mais além, para o registro da memória da vida cotidiana no país”.

Em sessão online será apresentado o filme São Paulo em Hi-Fi, de Lufe Steffen, um lindo documentário que, a partir de material de arquivo e entrevistas, resgata a memória da cena gay paulistana, que resistiu aos preconceitos sociais em plena ditadura militar e, anos depois, ao momento de explosão do vírus HIV.

Cada filme, a sua maneira e com seu olhar, conta histórias quase esquecidas, memórias que sobrevieram ao tempo graças à expressão audiovisual e à ação de resgate e preservação.

Fernanda Coelho e Daniela Giovana Siqueira

Curadoras Temática Preservação