CINEMA DE ANIMAÇÃO NO BRASIL:  UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA

O cinema brasileiro de animação é e não é um fenômeno histórico. Não é um fenômeno se considerarmos apenas o volume de produção e a movimentação econômica com a realização dos filmes e depois com suas exibições nas estreitas janelas existentes até poucos anos atrás. Por esse ângulo da mensuração, convenhamos, os números são tímidos para fenômenos: pouco mais de uma dezena de longas-metragens e três centenas de curtas metragens entre 1917 e 2004 (números esses resultantes de obstinadas pesquisas informais de realizadores da Associação Brasileira de Cinema de Animação, criada em 2003, não de um órgão oficial de levantamento e organização de dados da atividade). É verdade também que, a partir de 2004, mas sobretudo a partir da segunda década do século XXI, os números tiveram significativa curva ascendente, com mais de 60 longas realizados e uma quantidade imensurável de curtas para cinema e séries (são mais de 80 em exibição em tevês e streamings neste momento). É um momento mais robusto, se comparado ao século XX, mas já esteve melhor (entre 2010 e 2016, por exemplo). Esse crescimento foi garantido por mecanismos legislativos de financiamento e de exibição, como o Fundo Setorial do Audiovisual e a Lei da TV Paga (12485, de setembro de 2011), atualizada pela Lei 14815, em 2024, que amplia até 2038 a vigência de cotas obrigatórias de exibição de produção brasileira independente nos canais por assinatura. 

O cinema brasileiro de animação é, por outro lado, para além dos números dos últimos anos (não exatamente fenomenais, mas mais expressivos), um tremendo fenômeno histórico. Existindo, sobrevivendo e resistindo contra a falta de tudo e movida pela paixão heroica e auto-didata de algumas iniciativas ao longo da maior parte de sua história, marcada por descontinuidades nas carreiras (menos de cinco diretores fizeram pelo menos três longas-metragens)  e por casos de filmes isolados de algumas pessoas, a animação brasileira é uma persistente permanentemente, sobretudo no curta metragem (seu principal meio expressivo, pelos orçamentos menores, por equipes mais enxutas e pela liberdade de experimentação), com uma dimensão estética e cultural considerável. Aos trancos e barrancos, em algumas obras específicas ou no conjunto em diferentes décadas, a animação chega em 2024, ano visto como de recuperação do que foi destruído entre 2016 e 2022 (governos Temer e Bolsonaro), com tantos orgulhos e muitas demandas. Haver demandas é um sinal de outro lugar da atividade e do setor se comparado a poucos anos atrás, quando as demandas eram inviáveis porque não estavam organizadas e não havia condições de demandar nada. Se a animação sempre esteve de alguma forma na publicidade, desde o início da publicidade na televisão no Brasil, hoje tem mais alternativas de exibição. Não significa que, de forma alguma, esteja satisfeita. 

Focando sua programação em uma perspectiva histórica e contemporânea, a 19ª CineOP propõe para a edição de 2024 a temática histórica CINEMA DE ANIMAÇÃO NO BRASIL: UMA RESISTÊNCIA! com a realização de sessões de curtas e longas-metragens de segmentos autorais e criativos da produção, pensados para a existência sobretudo em uma tela de cinema. São produções desenvolvidas e exibidas em diferentes décadas, de modo a se ter contato com uma variedade de estilos de técnicas, desenhos, cores, movimentos e personagens (quando há). Também propusemos rodas de conversas sobre questões históricas e contemporâneas do cinema de animação no Brasil, que lidam com processos criativos, relações com o mercado, as reais condições estruturais de trabalho, a presença das mulheres em distintas funções, as criações mais centradas em uma pessoa e as elaboradas em grupos e coletivos. Procuramos destacar o lugar nobre e essencial dos curtas-metragens nesse recorte de um percurso histórico, pelo formato/duração ser o coração do cinema de animação no mundo e no Brasil, mas também valorizamos em nossos critérios de programação a importância específica de alguns trabalhos e a de quem os dirigiu no momento de seus surgimentos ou nas reverberações anos depois.

Embora haja textos a afirmar que, desde ao menos 1907, havia charges animadas em cine jornais, o marco inicial da animação brasileira é O Kaiser (1917), de Seth, curta-metragem do qual sobreviveu um fotograma. No longa, esse simbolismo mítico do filme inaugural foi Sinfonia Amazônica (Anelio e Mario Lattini Folhi, 1953), reunião de sete lendas brasileiras, em preto e branco, com trilha sonora de domínio público e a animação de 500 mil desenhos, tendo Fantasia, da Disney, como uma referência inspiradora. Separados por 36 anos, o primeiro curta e o primeiro longa têm em comum o autodidatismo experimentador de seus realizadores e a multiplicação de funções em uma única pessoa. A década de 50 ainda abriria a frente experimental de Roberto Miller, que foi estudar no Canadá no National Film Board e, na volta, firmou parceria com Lucchetti e Bassano Vaccarini no “Centro Experimental de Cinema de Animação”, em Ribeirão Preto (SP), que resultaram em importantes curtas para a época, influenciados por Norman MacLaren, uma das cabeças do National Film Board, a quem Miller conheceu no Canadá. A animação brasileira tem em suas origens, portanto, um viés autoral e experimental.

Criada em 1939 e reconhecida internacionalmente, com seu grande volume de produção, de perfil experimental e inovador, muitos prêmios e influência mundo a fora, o National Film Board teve grande importância no desenvolvimento da animação brasileira, principalmente a partir dos anos 70, com a assinatura de uma parceria entre o órgão e a Embrafilme, estatal mista então responsável pela produção, exibição e internacionalização do cinema brasileiro. O primeiro passo foi levar animadores para o Canadá para estagiar nos processos de produção. Marcos Magalhães estava nesse primeiro momento e, ao voltar, tornou-se no CTAV, do Rio, já em 1985, coordenador de um núcleo profissionalizante de animação. Em segundo momento, o NFB enviou equipamentos e técnicos para o Rio, possibilitando realizar um curso e uma dezena de curtas metragens com os alunos e alunas deste curso. A década de 80, no panorama histórico da animação no Brasil, têm grande importância. Após essa parceria com NFB, são criados quatro núcleos regionais de animação, no Rio, em Belo Horizonte, em Fortaleza e em Porto Alegre. Alguns dos curtas mais interessantes da animação brasileira também são dos anos 80.

Em 1993, surge o Anima Mundi, iniciativa de Marcos Magalhães e de Aída Queiroz, Cesar Coelho e Léa Zagury, que haviam feito o curso do NFB/CTAV. O Anima Mundi foi, nos anos seguintes (até sua última edição em 2019, já com financiamento coletivo, sem apoio de empresas estatais), o grande estimulante da animação. Três anos depois, é lançado Cassiopeia, de Clóvis Vieira, primeiro filme brasileiro de animação digital, que, não fosse pela falta de recursos e por um acidente de percurso, teria ficado pronto antes de Toy Story (1995), primeira animação digital no mundo, feito da Pixar. O Anima TV, concurso realizado pela Secretaria do Audiovisual para exibição na TV Cultura e TV Brasil, é outro marco importante, já dentro de um contexto de existência da Associação Brasileira de Cinema de Animação (de 2003), mas só aconteceu em 2008 e 2009, sendo interrompido em 2010. No ano seguinte, é assinada a Lei da TV Paga, que, de certa forma, veio ocupar e ampliar o espaço do Anima TV, colocando as produções brasileiras junto às estrangeiras nas grades dos canais por assinatura, sobretudo Nickelodeon e Cartoon Network nos primeiros anos. Se do quase nada chegou-se a algum lugar, também é verificável que, no cinema mais autoral (de curtas ou longas) e mesmo nas séries, as dificuldades continuam enormes. Há pouco dinheiro, os salários são baixos, o tempo da criação é longo. O maior campo de atuação profissional, desde os anos 60 até os dias atuais, continua sendo a publicidade, que, em entre seus triunfos, contou com algumas invenções das animações, com campanhas e personagens marcantes, como Sujismundo, Variguinho, DDDrin, Sidnelson.

Embora a animação brasileira possa ainda ser considerada e vivenciada como a prima pobre do audiovisual brasileiro, sobretudo nos filmes mais autorais, com suas dificuldades de atrair dinheiro e público por conta de seus próprios estilos mais rebuscados ou experimentadores, sua presença nos streamings, nas tevês e no cinema não tem como ser ignorada e está dentro de casa ou nos festivais, sem gritar que é brasileira para angariar importância e legitimidade para sua permanência, persistência e existência. Sua forma de existir e resistir é por meio de suas próprias capacidades de despertar interesse e curiosidade em quem tem mínima abertura para desfrutar do que não são os modelos narrativos, visuais e estilísticos criados por uma espécie de chip internacional. É essa personalidade própria, sem ser estereotipada, sem se render aos realismos da aceitação social, sem despencar na representação estreita da vida em um país, procurando arrebentar o cadeado da imaginação e da ousadia, que garante sua continuidade e seu reconhecimento. Anime-se. Está para começar. 

Cleber Eduardo
Curador | Temática Histórica