MEMÓRIA AUDIOVISUAL NO BRASIL: RESISTÊNCIA E RESILIÊNCIA NO TEMPO

A sobrevivência dos povos originários no Brasil apresenta um lastro histórico de resistência e resiliência, capacidades articuladas para fazer frente às sucessivas ações privadas e públicas de extermínio desta população, sua cultura e tudo que ela representa. A programação da 17ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto abre espaço para a questão indígena e com isso possibilita para a temática Preservação fomentar pontos de discussão sobre o campo da preservação audiovisual brasileira.

O exercício de salvaguardar imagens no país, se deve, em larga medida, à resistência e resiliência presentes no trabalho de profissionais dedicados e na articulação social empreendida pelo setor da preservação. A crença, sempre presente, de que mais um ciclo de crise irá passar e que novos caminhos serão construídos, também sustenta no tempo, a existência do vasto patrimônio audiovisual brasileiro.

Os percalços não foram poucos. Sobre a maior instituição de guarda de filmes em território nacional, pesa o registro de cinco incêndios, legando possivelmente a ela o título de cinemateca mais incendiada do mundo. O primeiro, e talvez o mais trágico, aconteceu em 1957, depois em 1969, outro em 1982, ainda em 2016 e 2021. Todos os incêndios ocorreram em circunstâncias institucionais difíceis, com falta de verbas e de equipe técnica.

Os textos de Paulo Emílio Salles Gomes em sua coluna semanal no Suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo, documentam boa parte da crise vivida pela instituição ao longo da década de 1960. Não se pode esquecer tão pouco, que passados cinquenta anos desde aquele contexto, a Cinemateca Brasileira teve suas atividades totalmente paralisadas em agosto de 2020. Em abril de 2021, retomam-se os trabalhos de manutenção predial e somente em maio de 2022 acontece a reinauguração da instituição, contando agora com equipe apta para o tratamento técnico do acervo. Outro fato que não pode ser esquecido, e marca o início dos anos 2000, é a crise vivida pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Na ocasião, o segundo maior acervo cinematográfico brasileiro, sofreu com uma grande dispersão de seu acervo, tendo grande parte de seu acervo de matrizes encaminhado para outras instituições, e perdendo também parte do acervo documental, colocando em dúvida a própria sobrevivência da Cinemateca. Estes são apenas dois exemplos emblemáticos que comprovam que, se a preservação audiovisual segue em pauta no Brasil, é porque ela resiste às intempéries do tempo e das circunstâncias político-sociais.

Em 2022, o mundo ainda vive as consequências de enfrentar uma pandemia mundial, provocada pela COVID-19, registrando diariamente mortes que já se contam aos milhões. A orientação sanitária indicou a permanência da população dentro de  casa como um ato necessário para combater a propagação do novo coronavírus e,diante disso, a imagem em movimento, presente no interior da vida doméstica, encontrou o momento para deixar, ainda mais claro para a pauta social, que o contexto de produção, circulação e o reflexo simbólico de conteúdos audiovisuais no imaginário social, pertence também a indivíduos que simplesmente portam aparelhos celulares e acesso às redes sociais via internet. Certamente que é preciso pensar nas instituições, mas hoje é imperioso refletir sobre a produção que não é mapeada por elas, e que cresce em um volume de ordem exponencial, jamais visto na história da humanidade. Registros que geram, no tempo, a possibilidade de memória pessoal e comunitária.

Memória? Sobre registros guardados onde? Preservada como?

Essa é uma das dicotomias que devem ser enfrentadas na atualidade. O documento audiovisual tem-se tornado cada vez mais um meio de comunicação essencial e é uma das expressões culturais mais representativas de nossa sociedade contemporânea. Os historiadores do futuro jamais compreenderão os tempos atuais, em toda sua complexidade, se não tiverem acesso aos registros audiovisuais. Paradoxalmente, os suportes que os contém, como filmes, meios magnéticos ou cartões de memória, são dos mais frágeis que a humanidade já criou para gravar sua passagem por esse planeta. O desafio da preservação audiovisual digital, como se tem falado nas últimas duas décadas,suscita novas reflexões, novas metodologias e uma urgência sem precedentes. Da diversidade de manifestações até a diversidade de tecnologias, há permanentemente um processo de escolhas, que vai determinar o que sobreviverá para as próximas gerações, o que será lembrado e o que será esquecido da nossa era.

Da mesma forma, se por um lado o digital democratiza a expressão audiovisual quando se constitui em um instrumento facilitador da criação de narrativas e do registro das realidades, por outro, é fato notório que ele coloca a sociedade diante de questões de difícil solução.

Embora não com a intensidade dos dias de hoje, esse movimento multiplicador foi inaugurado pela própria película cinematográfica quando esta ganha, com a bitola em 16mm, uma apropriação mais popular. Formatos mais acessíveis, tornam possível a emergência de novos sujeitos para a composição da cena política. Ao pensar a discussão sobre preservação audiovisual buscando percebe-la de maneira mais descentralizada, podemos encontrar movimentos sociais, ações individuais, trabalhos organizados a partir de coletivos compostos por amigos, na periferia e em esforços na esfera pública, preocupados com temas emergentes como a migração, por exemplo. A própria existência de manifestações tão diversas no campo da preservação de imagens, indicam resistências que tornam possível a multiplicação de perspectivas sobre o campo da preservação no país.

Lançar um olhar sobre as dicotomias brasileiras e todas as questões postas à nossa sociedade nos permite mapear fatos como o ocorrido na cidade de São Paulo em 2021. Enquanto a Cinemateca Brasileira pegava fogo pela quinta vez, um jovem morador do Capão Redondo, zona periférica da cidade, produzia um filme de arquivo[1].

Um olhar carregado de historicidade, que busque percorrer espaços presentes nos mais diferentes estratos sociais, pode nos permitir enxergar que o quadro atual da cadeia produtiva do audiovisual no país, convoca a partilha de experiências para promover as práticas da preservação nas mais diferentes iniciativas que tenham por base a imagem em movimento e a documentação correlata por ela gerada. Este movimento pode nos ajudar a responder, no futuro, sobre a permanência social entre os brasileiros, de um conteúdo diverso e descentralizado, muitas vezes invisibilizado pela sociedade, e que nos permitirá construir memória e sedimentar lastro histórico com mais segurança e com menos possibilidade de repetir erros.

Em 2022, completa-se o bicentenário da Independência brasileira e o centenário da realização da Semana de Arte Moderna. Pensando uma relação processual entre os dois marcos temporais, é possível afirmar que ambos buscavam estabelecer um posicionamento diante do mundo a partir do espaço brasileiro. Masas iniciativas apontaram sentidos divergentes. Em 1822, a Independência enxergava esse espaço como um território a ser explorado segundo conveniências privadas, garantir fronteiras para manutenção da ordem política, econômica e social. Em 1922, o modernismo traça sobre o território uma perspectiva cultural, espaço com certa trajetória a ser conhecida, identificada, para que pudesse haver uma independência no cultivo das práticas sociais.

A segunda efeméride faz recuperar os ideários do movimento modernista, com destaque para Mário de Andrade e toda a sua busca por trazer para o plano de discussão, de forma equivalente, elementos da cultura erudita e popular, e por agir de forma a garantir a presença do Estado no campo da cultura. Proposições feitas na década de 1930, que os fatos recentes mostram que ainda não foram conquistadas. Esta proposta de Mário de Andrade falava e segue falando de algo muito caro ao campo social e cultural nacional: dizer para nós mesmos que país somos e o que construímos a partir das nossas próprias referências. Há toda uma ordem cultural que é produzida e não acessada pelos próprios brasileiros. Um exemplo muito direto disso é a produção cinematográfica nacional, uma ilustre desconhecida do grande público. A resistência segue sendo uma premissa balizadora das seguidas tentativas de se construir neste país uma política cultural que nos faça sair do desastroso ciclo das repetições sem diferenças.No ensaio “Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”, Paulo Emílio Salles Gomes afirma, “a penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro”. A Independência e a Semana de Arte Moderna nos falam, pela motivação econômica e pela temática cultural, sobre essa insólita base que coloca sobre o espaço, sobre o território brasileiro, complexas proposições que podem relacionar-se com sua real independência.

O programa da temática Preservação buscou trazer para o debate agentes que constroem nossa memória audiovisual, em diferentes iniciativas descentralizadas, para que o compartilhamento e a reflexão ampliada alimentem a esperança de que possamos aprender com essa diversidade e encontrar caminhos para sedimentar trilhas mais amadurecidas na reflexão da nossa brasilidade.


[1]Mutirão: o filme (2022), de Lincoln Péricles

Daniela Giovana Siqueira e Fernanda Coelho

Curadoras da Temática Preservação

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